Anjos em Ethandun

Então, este é o primeiro conto que estou postando aqui. Ele vai ser dividido em três partes. Portanto, será postado ao longo de três semanas. Não é nenhum conto grande, nem dos mais criativos. Foi mais um exercício de escrita neste estilo de narração (que eu achei bem legal, diga-se de passagem). Não se passa em Cmyvllaeth nem em nenhum cenário meu, mas tem como pano de fundo a Inglaterra histórica, com um toque de fantasia.

Um skald que a maioria de vocês já ouviu falar.

Anjos em Ethandun

Ei, garoto, não precisa ficar com medo. Pode parar de me olhar de trás daí dessa carroça velha e vir até aqui se quiser, em vez de me espiar como um moleque tentando ver uma mulher nua. Posso ser um dinamarquês velho, barbudo, fedorento e caolho, mas até onde me recordo não tenho mania de morder a mão que me alimenta e no presente momento eu trabalho para seu pai, um saxão de Wessex.

Calma, calma… He he… Não precisa ficar irritadinho, sei que sabe de onde seu pai é. Apenas perdoe a mania que esse velho skald tem de querer embelezar e trabalhar cada coisa que fala, mas, afinal, é costume de profissão. O que é um skald? Quer saber o que é um skald? Posso te contar, mas… Hmmm… Que tal fazermos uma troca: Você vem até aqui, senta onde preferir e então lhe conto o que é um skald e mostro em primeira mão o que um deles faz. Tudo bem para você?

Isso! Agora sim conversando como dois homens civilizados do ano de 903! Alias… Não… Ainda está faltando uma boa cerveja, mulheres com grandes tetas e um suculento pernil de porco assado numa fogueira… Acho que vamos ter que nos contentar sem isso. Se bem que seus malditos padres chorões vivem dizendo coisas sobre garotos de sua idade serem proibidos de ter essas coisas. Certamente meninos dinarmaqueses com doze verões são muito mais felizes que moleques anglos. Hã?! Parar de enrolar e dizer o que é um skald? Ah… Claro, claro, já havia até me esquecido. Nos últimos anos minha memória não tem sido muito boa para coisas recentes… Apenas para o que há muito se passou…

Indo direto ao ponto, antes que você, vermezinho… Um skald é o equivalente a um bardo, para vocês saxões. Contamos histórias, criamos poemas, falamos de guerreiros lendários e seus feitos em batalha… Esse tipo de coisa… Com a óbvia diferença de que somos muito melhores do que qualquer um de vocês virá a ser, claro.

O quê?! Duvida da minha habilidade com histórias?! Raá! Garoto, eu sou Bragi Boddason e isso até mesmo um fedelho anglo-saxão cheirando a leite como você deveria saber. Eu servi a Ragnar Lodbrok e vi sua ruína dentro do fosso. Estava lá quando seus filhos o vingaram, capturando e matando Aelle de Jórvik, estirando suas costelas para fora pelas costas, formando a águia de sangue. Presenciei a queda Ivar e Hubba Lodbrok, vendo, assim, o fim de uma linhagem destinada a saques e conquistas… E meus olhos viram a última grande derrota da Dinamarca… A única que não poderíamos ter perdido: A batalha de Ethandun.

Pare de matraquear besteiras garoto! Não ouça essas conversinhas sobre saxões serem melhores na espada do que os vikings. Aquela batalha não foi ganha de modo justo, homem contra homem, skjaldborg contra skjaldborg, parede de escudos contra parede de escudos… Não… Não foi assim que aconteceu… Do contrário, os guerreiros de Guthrum, e isso que eram: guerreiros de verdade, teriam destruído aquele amontoado de camponeses que Ælfred chamava de exército… Mas vocês tiveram ajuda inesperada… E, pelas oito patas de Sleipnir, como foi inesperada!

Pare com suas ofensas idiotas, criança, já falei. Não importa o quanto fique cacarejando, como o frangote que é, nunca vai fazer com que saxões sejam melhores guerreiros que os dinamarqueses ou mesmo qualquer povo viking. E eu não estava inventando desculpas para a derrota! Vocês tiveram sim uma ajuda desleal e se não fosse por aquilo esse lugar seria uma nova Dinamarca e nós dois estaríamos falando em dinamarquês. Que ajuda foi? Eu estava pra falar isso, garoto idiota, espere eu começar a maldita história como eu disse que iria fazer logo quando você veio para cá. Te digo apenas que nessa vez, nessa única e exclusiva vez, a história contada pelos seus padres remelentos é a mais próxima da verdade…

Semana que vem postarei a segunda parte do conto e falarei rapidamente, bem rapidamente mesmo, sobre de onde veio a ideia do conto. Quem quiser saber alguma coisa a mais, sobre o conto ou os fatos históricos, basta perguntar nos comentários. Sei que usei muitos termos e referências estranhas, mas acho que dá pra entender ao decorrer do conto do que cada coisa se trata.

Música para se inspirar: The Sons of the Dragon Slayer (Blood Eagle) do Rebellion, que fala do mítico Ragnar e de seus filhos.

Para continuar lendo: a parte 2.

Renan Barcellos,  que não estava bebendo nada (mas sonhando com café)

e ouvia The Uprising do Rebellion

Anúncios

16 comentários sobre “Anjos em Ethandun

  1. Gosto desse estilo, mas acho que ainda está precisando pegar o ritmo pra ficar mais natural…

    Também fiquei pensando, agora, que este tipo de narrativa talvez seja usada como um recurso para esconder a identidade do outro interlocutor (porque não é uma forma muito direta de contar as coisas, na minha opinião, então tem de haver uma boa razão para ser escolhida…). Deste meu pensamento vem a pergunta: por que escolheste esse recurso? Disseste que foi um exercício, mas pensaste em algo da história que justificasse o estilo, também?

    Não conheço muito da história nórdica, creio que gostarei de conhecer através do conto.
    Ah, colocar as referências foi bem bacana neste caso, porque realmente há muita coisa desconhecida. Mas confesso que fiquei com preguiça de abrir os links, visto que seria muita coisa pra ler e o tempo anda curto. Então pensei que, nos casos mais importantes, *talvez* funcione colocar uma explicação curta no fim do post, e nessa explicação agregar algum(ns) link(s) externo(s) que consideres bons, para os mais curiosos. :-)

    • Essa narrativa foi o seguinte.
      Eu tinha lido lobisomem apocalipse anos atrás (de quando escrevi o conto) e eu lembrava que o conto introdutório era escrito assim. Aí resolvi tentar fazer o mesmo. Só que depois eu reli e livro e vi que não tava escrito dessa forma, mas em terceira pessoa normal D:

      Não acho que fique ruim para contar as coisas, sei lá. Acho que pode ser um bom modo de contar uma história sobre alguém que esta contando uma história. Eu gostei bastante de escrever nesse estilo, porque você se livra de tudo o que esta acontecendo e se concentra apenas no que o que o narrador da história conta.

      Na verdade, não é história nórdica isso, mas sim coisas que acontecem onde mais tarde viria a se chamar de Inglaterra xD Os filhos do Rei Aelfred que juntam os reinos anglo-saxões e formam a Englaland, que mais tarde fica apenas England.

      É, o lance dos links deve ter ficado pesado mesmo. Vou tentar fazer isso de colocar notas no final, mas só no ultimo post, que tal?

      • Por que não chega a ser considerada uma história nórdica, apesar da região?

        Acho que a parada dos links tá melhor, agora.

        E eu gostei do estilo, dá pra fazer coisas legais. Só tenho uma outra percepção quanto à melhor forma de usá-lo, creio…

      • Assim, o ponto de vista é nórdico. Só que é algo maior para os saxões do que era para os Dinamarqueses. Então acho que seria considerado mais uma história sobre os saxões do que os dinamarqueses.

  2. Interessante, porem curto demais. Por ter sido um exercício, esse início, pareceu um pouco forçado, meio deixando o leitor jogado, sem chão, mas aos poucos ficou mais natural, mas acabou muito repentinamente. Já que é um conto curto no total, poderia ter uma postagem mais longa, não?. Curto assim, corta o tesão do leitor, quando ele se empolga com a narrativa, e a quantidade de informação e pontas soltas o deixa meio suspeito da história (a não ser que o leitor seja um aficionado por história nórdica e céltica, ou pela grandes invasões das ilhas britânicas – ou mesmo que seja um leitor das Crônicas Saxônicas, ou tenha lido alguma adaptação da Edda em prosa, Anéis de Nibelungo ou coisas do gênero).

    Estranho ter um Skäld em uma corte saxônica, já que os primeiros eram pagãos, cultuadores dos aesires e vanires, e assim, inimigos jurados de todo bom saxão. Skälds não eram apenas bons contadores de historias, mas meio que sacerdotes e bruxos também (mas parecido com os bardos celtas e não com os trovadores que se chamam de bardos na Inglaterra até o sec X-XI), seria interessante ouvir a respeito dessa queda do grande artista ao longo do conto, apesar de achar que não é foco. Outra coisa que achei estranho, é a referência de viking como povo. Viking era algo usado como “piratear”, “sair a saquear” e não definição de povo. Dinamarqueses, Noruegueses, Rus, o povo das Gotland, se referiam a si como Nórdicos, e não como vikings. E quase como se todo japonês se referisse a si mesmo como Samurai ou Ninja…Claro, que ele podia estar comparando ao saxões com os nórdicos que saiam para ser vikings, mas não me pareceu assim…

    Apesar de curto, gostei da paixão do narrador. A escolha do gênero, deixa isso transparecer fácil, e vc conseguiu ser primoroso na tarefa. Ficou bastante natural a paixão, que acho que queria transparecer. Irei acompanhar.

    Abraços!

  3. Realmente eu estou achando que não foi uma boa ideia dividir o conto em três partes, mas eu queria ver como iria ficar e como seria recebido por quem estivesse lendo. Como comecei o blog tem pouco tempo, ainda estou tentando ver como fica o rítmo de postagens e coisa e tal. Eu estou pensando em diminuir a frequencia e, em compensação, aumentar a tamanho dos posts com contos.

    Sobre a parte do Skald, tem um motivo para ele estar numa cidade dos saxões, embora seja algo bem fantasioso, na verdade.

    Quanto à menção sobre vikings, na verdade eu queria me referir literalmente aos nórdicos que saiam saqueando outros povos pelo mar, como nas primeiras incursões dinamarquesas aos reinos saxões das ilhas britânicas.

    Obrigado por ler este conto. Foi bem legal encontrar outra pessoa que também goste da história dos nórdicos e saxões. Se ainda não conhecer a banda Rebellion, dê uma olhada, eles tem três albuns só falando sobre história e mitologia nórdica =)

  4. Você já tinha me mostrado esse conto, mas não acredito que eu tenha lido tudo… bom, vou ler o resto agora, nos próximos posts q.

    E concordo que dividir o conto não tenha sido uma idéia muito interessante… dá uma agonia, haha.

    Quanto ao resto acho que o povo não-atrasado já disse tudo, hmm.

    Seu lindo :3

  5. Então… Atrasadíssimo, mas finalmente chega meu comentário… >.>

    Eu gostei muito deste estilo. É divertido de ler e imaginar as falas e reações do garoto… Pooorééém reforço o que os outros disseram, pode ser meio confuso de início…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s