Anjos em Ethandun – Parte 3

Perdeu o início? Leia a parte 1 aqui.

Então, a ideia desta narrativa um tanto quanto “diferente”, veio de minhas lembranças sobre o conto introdutório do livro de rpg “Lobisomem o Apocalipse”. Nele, um garoto que passou recentemente por sua primeira mudança e precisa ser ensinado nos antigos modos garou recebe uma lição de história e cultura de um lobisomem mais antigo. Na época em que escrevi Anjos em Ethandun eu tinha lido o livro apenas uma vez, por volta dos doze anos, e por algum motivo achava que nesta história introdutória o estilo da narrativa era este que usei, mas depois que reli… bom, vi que não era. Mas a influência de um ancião narrando histórias do passado para alguém que é em parte de seu povo permanece.

Uma curiosidade: o conto poderia ficar bem maior, no entanto, tive que restringir bastante minha mão, porque o intuito inicial era mandá-lo para um antologia. De última hora mudei de ideia e enviei “O bardo e o bárbaro” e “A queda do forte Belkarrar”, que eventualmente serão postados aqui.

Não muito parecidos com saxões e dinamarqueses, mas eles também têm seus contadores de história (e nativos da Dinamarca).

Sem mais delongas, a parte final do conto:

O dia da batalha veio rápido. Com os preparativos prontos Guthrum marchou até onde o rei inimigo se encontrava, sedento por acabar aquilo e garantir sua estada na Britannia. Ælfred tinha números. Sua formação possuía mais gente e o terreno inclinado tornaria o combate difícil para o lado da Dinamarca. Porem nós tínhamos guerreiros. Cada um com uma boa espada e uma boa armadura. Subimos o morro com disciplina, cada um protegendo a si e ao colega da esquerda com seu escudo e, mesmo cansados, estávamos vibrantes quando os escudos se chocaram contra os do inimigo na metade do morro. Primeiro houve dificuldade. Os melhores guerreiros saxões ficavam na frente das fileiras, tentando abrir nossa parede e dar passagem para os covardes, mas logo rompemos essa linha e o pânico se instalou entre seu povo.

O chão foi tingindo-se de vermelho a cada golpe. Corpos se amontoavam no chão e corvos observavam de longe, esperando uma oportunidade para sua própria pilhagem. Com a parede de vocês quebrada logo chegamos perto do seu rei, cada um ávido pelo prêmio e honrarias que teria ao matá-lo. Porém, quando a guarda pessoal de Ælfred estava caindo e o próprio rei havia desembainhado sua espada e se preparava para lutar contra o próprio Guthrum… Aconteceu.

Todos viram as bolas de fogo caírem do céu nublado. Primeiro pensamos que o fim do mundo havia chegado e que todos, saxões e vikings, morreriam ali mesmo. Mas não era obra de um demônio. Eram anjos. Aquelas criaturas aladas desceram com toda sua majestade emplumada portando grandes espadas de fogo. No início ninguém se moveu, maravilhados e aterrorizados com a súbita aparição. Apenas quando os seres divinos pousaram ao lado de Ælfred e começaram a golpear seus inimigos, fazendo com que o cheiro de carne dinamarquesa queimada alcançasse a todos, a correria começou. Nossos homens debandaram como formigas fugindo das brincadeiras cruéis de um garoto. A maioria não saiu daquele lugar com vida e os que viveram, como eu, para contar a história, viram ao longe os anjos desenharem sobre o monte o que hoje é conhecido como Cavalo Branco de Westbury. Dessa forma marcando aquele dia em que o divino interagiu com o mortal e salvou a vida e o reino de um fiel rei cristão.

Não fale nada sobre isso garoto, sei que os camponeses e o próprio Ælfred quiseram levar o crédito todo da coisa, dizendo que foi uma batalha sensacional e que com espadas em punho expulsaram todos os vikings em um grande confronto… Mas aconteceu do jeito que eu falei. Depois disso não foi difícil para Guthrum correr com o rabo entre as pernas de volta para Danelaw, mudar o próprio nome para Æthelstan e se cristianizar… Não com o que havia visto…

Mas há coisas que escapam do conhecimento da maioria dos homens e de quase todos os reis… Talvez apenas os loucos, os bobos da corte e alguns andarilhos desconfiem… O que acontece é que ao mandar seus anjos para a guerra, Yavé, seu Deus, feriu um acordo muito antigo e Odin – deus nórdico que por vezes se disfarça de um contador de histórias andarilho e caolho – não pretende deixar as coisas como estão.

Então, quando chegar a hora, Sigurd, tenha a certeza de que escolheu o lado certo… E lembre-se das antigas histórias contadas por sua mãe…

Ah, sim, ele existe.

Este conto se passa em 903 no sul da Inglaterra. Os eventos narrados por Bragi (ou Odin) falam da batalha de Ethandun (atual Edington – ao menos, é a suposição mais comum), um conflito histórico que aconteceu em 878 da era cristã. Nesta época, ainda não existia a Inglaterra e pode-se dizer que a ideia de unificar os reinos saxões parecia um sonho muito distante, pois todos eles se encontravam sob ocupação dinamarquesa e o único rei que não havia sido capturado era Alfredo, que fugira despercebido durante a tomada da cidade de Chippenham e conseguira se esconder no interior de seu reino.

Um ano mais tarde, ocorreu a batalha de Ethandun, onde as forças de Alfredo combateram as do invasor Guthrum, o rei de Danelaw, sendo Danelaw terras que anos antes foram tomadas de saxões residentes na Grã-bretanha. A batalha, de certa forma, decidiu que povo, no futuro, dominaria o lugar. Caso Guthrum ganhasse, os dinamarqueses teriam boa parte do território saxão sob seu poder e nenhum rei teria autoridade para contestá-los. No entanto, com a vitória de Alfredo, os dinamarqueses precisaram recuar para lamber suas feridas, fazendo com que o rei Guthrum assinasse um tratado de paz, afinal eram vikings vindos do outro lado do mar e seus reforços demoravam para aportar nas Ilhas Britânicas.

Não fosse essa vitória dos saxões, os dinamarqueses teriam dominado a maior parte do que hoje é a Inglaterra e, caso isso acontecesse, poderia ser que não tivéssemos uma “England” – Terra dos anglos -, mas uma “Daleland” – terra dos dinamarqueses.

Renan Barcellos, que na falta de coca bebia pepsi

e que precisava de Vodka.

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6 comentários sobre “Anjos em Ethandun – Parte 3

  1. Gostei do modo como contaste a história por trás da estória. Achei que o finalzinho do conto poderia ter sido mais explorado, talvez tenho sofrido um pouco pelo encurtamento pra entrar na antologia.

    Mas curti.

    Ah, a playslist dos posts pode ser conferida em: http://grooveshark.com/playlist/E+Outros+Cen+rios/70210939 (e crescendo, todas as segundas, quartas e sextas-feiras. =P)

    (esta é a terceira vez que tento postar este comentário >.<)

    • Que bom que ficou legal a “história por trás da estória”. Fiquei com medo de ficar mal explicado. Acho que esta boa, desde que um estudante de história não apareça aqui e tenha um ataque :x
      Me perguntando como poderia colocar a playlist na barra lateral, vou dar uma olhada nisso =)

  2. Aaaaaaah terminei então, finalmente!~ (sim, pulei os outros posts pra ler o conto, risos)

    Achei legal,ficou gostoso de ler (tirando que tá dividido ;-;). E concordo com a Juliana quanto sua explicação, achei massa. :3

    Queria escrever que nem você, beijos. Seu lindo.

  3. Acho que não devia ter segurado a mão. Duas partes preparando para um final mais empolgante e foi tão direto e simples. Meio que cortou o tesão e ficou mais com cara de uma prólogo de algo maior (uma mistura de Deuses Americanos com Crônicas Saxônicas rsrs) do que um conto fechado em si.

    Talvez seja algo a mais a explorar. Seria uma boa.

    Espero mais contos (de preferência maiores!!! rsrs)

    Abraços!

    • Realmente, o final ficou meio abrupto, mas acho que pelo menos deu para mostrar o porque das coisas, como, por exemplo, porque diabos um skald estaria ali.
      Eu nem tinha pensado nessa mistura Deuses Americanos e Crônicas Saxônicas, mas poderia até ficar algo interessante no fim das contas xD Deu até ideia para um outro conto… mas agora ta complicado de eu continuar com uma história assim, pois estou bem entranhado no projeto de meu livro.

      Tentarei postar contos maiores agora e tentar não dividi-los… se bem que os meus contos maiores são… realmente maiores.

      Obrigado por ler =)

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