Resenha – A Máquina Diferencial

Um romance histórico de um passado que nunca existiu

Capa do livro, muito bonita em minha opinião

William Gibson e Bruce Sterling são conhecidos principalmente pelo mérito de definir o que seria o Cyberpunk na literatura, com trabalhos como Neuromancer e a antologia Mirrorshades. No entanto, A Máquina Diferencial (Editora Aleph, 2012; 456 páginas; R$ 55,00)  não leva o leitor até um futuro distópico. O livro, escrito simultaneamente pelos dois autores durante um período de sete anos, traz à tona uma Era Vitoriana onde vapor e computadores fazem parte do cotidiano. Além de serem os precursores do Cyberpunk, os dois autores acabaram escrevendo uma das maiores referências do Steampunk.

No universo de A Máquina Diferencial, a ciência evoluiu de forma muito mais acelerada que a versão histórica da Era Vitoriana. Conseguindo finalizar o projeto que nomeia o livro, o matemático Charles Babbage acaba trazendo uma série de mudanças não só para a ciência como para o mundo.

Adquirindo cada vez mais influencia devido às conseqüências da revolução industrial e da Máquina, e conseguindo frustrar o golpe de estado realizado pelo Duque de Wellington, Lorde Byron e o Partido Radical – os rads – conseguem chegar ao poder. Logo a influência da Inglaterra começa a aumentar, os portos do Japão são abertos pelos ingleses e os Estados Unidos se dividem e enfraquecem antes mesmo de haver uma Guerra de Secessão. A velha aristocracia inglesa perde seus direitos hereditários e uma meritocracia científica, sob o olhar do primeiro ministro, Byron, domina o panorama político.

Com o tempo, carruagens a vapor trafegam por Londres; inúmeras máquinas são automatizadas por programação usando cartões perfurados; cinétropos – cinemas feitos com a tecnologia da Máquina – atingem a grande população e uma vasta rede de quilômetros de engrenagens processa as informações da maioria das agências inglesas.

O Babbage histórico pode não ter conseguido montar a máquina dele no séc. XIX por questões de grana e material, mas em 1991 ela foi terminada pelo Museu de Ciência de Londres… E funcionava.

Em meio a isso, Sybil Gerard, uma prostituta, filha de um finado líder ludita, se vê em meio às politicagens que envolvem Sam Houston, Presidente da República do Texas, que fora deportado; Edward Mallory, paleontólogo que descobriu o Brontossauro enquanto lutava com índios e texanos, vê sua carreira em ascensão ser ameaçada por um criminoso; e Oliphant, um jornalista, diplomata e espião, tenta juntar as peças que consegue encontrar. Histórias que à primeira vista parecem desconexas, mas em que uma série de curiosos cartões de clacking – ferramentas usadas para programação da Máquina –, um bandido texano e a própria Rainha das Máquinas, Ada Byron, parecem sempre estar envolvidos, em uma conspiração que ameaça todo o Partido Radical.

O livro tem uma história cativante, que prende a atenção do leitor e mais do que cumpre seu papel. No entanto, está longe de ser um dos únicos atrativos. A Era Vitoriana re-inventada por Gibson e Sterling é uma maravilha à parte. É possível ver todo o espírito vitoriano numa Inglaterra que nunca existiu, com suas mudanças que começam a partir da criação da Máquina e pouco antes do golpe de estado de Wellington, que também nunca existiu.

Personagens históricos e fictícios (estes, bem poucos, na verdade), se misturam na Londres que nunca existiu, cada qual vivendo vidas alteradas pela tecnologia e mudanças culturais. Benjamin Disraeli, que nesta época deveria ser o primeiro ministro ao invés de Lorde Byron, não passa de um jornalista e escritor um pouco mau afamado em seus círculos. Nem mesmo The Two Nations, romance escrito pelo Disraeli histórico, escapa das mudanças, pois Sybil, a prostituta que figura entre os personagens principais, na obra original se casaria com Charles Egremont, homem que no Steampunk destruiu sua vida.

É notável ver toda a comunidade científica desvelada pelo olhar de Edward Mallory. A salada de referências históricas afetadas pelo surgimento da Máquina é um dos pontos mais bem construídos do livro. Das discussões científicas que o paleontólogo fictício mostra à situação da ciência na sociedade tecnocrática e em como um homem que nunca existiu interagia com personalidades históricas. Em especial, as passagens onde se discute o Catastrofismo e sobre a natureza dos dinossauros mostram muito bem a cultura científica que se formou na Inglaterra (embora muitos leitores possam preferir momentos como quando Mallory, seus irmãos e o policial Fraser vão à caça do “líder” da nova revolução ludita, o capitão Swing).

Othniel Charles Marsh descobriu o Brontossauro em nossa realidade… Ainda prefiro Mallory.

Em A Máquina Diferencial, William Gibson e Bruce Sterling mostram que escrever em pareceria, embora traga o dobro do trabalho, como eles mesmos dizem, podem trazer uma obra memorável. Todos os sete anos de pesquisa e escrita parecem ter valido a pena, pois realmente construíram um romance histórico de um passado que nunca existiu, e as referências a mais de trinta personalidades que realmente existiram em nossa história mostram o quão bem arranjado foi o romance. O palavreado e a postura dos personagens também foram de muita eficácia, pois remetem muito bem o sabor da Era Vitoriana.

A edição brasileira da Editora Aleph, apesar de carregar um atraso de mais de vinte anos – a obra foi lançada em 1990 –, é de altíssima qualidade. As páginas são melhores que a maioria das publicações brasileiras, fisicamente o livro também é de altíssima qualidade. A tradução, feita por Ludimila Hashimoto, é muito esmerada, conseguindo passar muito bem o clima e o palavreado de uma época antiga. No fim do livro, glossários com termos da época e breve histórico das várias personalidades históricas situam qualquer leitor. Um posfácio escrito pelos autores para a edição comemorativa de vinte anos e um mapa completam o volume.

A Máquina Diferencial é um prato cheio não só para os amantes do Steampunk, mas também para aqueles que gostam da Era Vitoriana. Toda a arrogância burguesa, os cavalheiros, as damas, o palavreado rebuscado, espartilhos, cartolas e anáguas, bem como o panorama de uma Londres tão semelhante – mas ainda assim tão diferente – podem ser encontrados. Cultura, política e ciência especuladas, bem como máquinas a vapor e o punk em forma de revolta social são coisas que um leitor pode ter certeza de que irá encontrar.

Renan Barcellos, que, alegre, bebia coca

E jura que tentava aproveitar o dia.

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10 comentários sobre “Resenha – A Máquina Diferencial

  1. Não tenho o costume de procurar coisas Steampunk para ler, mas você e Heitor falaram tanto nesse livro que fiquei de olho comprido nele na livraria. Está na lista.

  2. Adorei a resenha, Renan!!
    Pra falar a verdade, nunca li nenhum livro com temática Steampunk, mas me interessei bastante pela premissa deste livro… parece ter sido uma sacada e tanto dos autores, misturar história e ficção! A capa é realmente linda, e deu mais vontade de ter o livro ainda… *-*
    Bjus!!

    • Paty, acho que esse livro é muito bom para começar a ler steampunk (inclusive, eu nunca havia lido romances steampunk, só livros de rpg, jogos, filmes e etc). A obra é realmente legal e acho que ajuda bastante ao leitor a ir construindo uma imagem da Era Vitoriana (embora minha opinião não seja muito boa neste quesito porque eu já estava estudando sobre o período).

  3. Não sei se o livro está publicado cá… E uma vez que as falas são fieis ao ambiente vitoriano, tenho receio de não compreender totalmente o inglês original XD Mas que a resenha deu vontade de ler, deu…
    Muito completa e chamativa =)

  4. Curti muito a resenha!! De fato deixa com vontade de ler o livro. Também gostei bastante do subtítulo – Um romance histórico de um passado que nunca existiu -, que imagino que é teu, né?
    (pra variar, fiz a revisão básica =P )
    Ainda hoje ela vai pra fanpage do Vitrine Inversa! ^.^

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