Sobre o 18 do forte Belkarrar e principalmente sobre os do Forte de Copacabana

O forte Belkarrar é um daqueles fortes que os rumores dizem ser invencível, impenetrável e que, como em toda obra de fantasia que se preze, cai frente a tropas inimigas. O objetivo ao escrever o conto foi mostrar algo épico, mostrar um general que, sabendo da derrota e acompanhado de soldados leais, cientes de que apenas morte e destruição os aguardam, continuam a fazer frente ao inimigo apesar de todas as dificuldades. No entanto, 18 homens nunca teriam esperança contra um exército inteiro.

Foto dos Dezoito do forte… Não os dezoito do Belkarrar, contudo.

Uma quantidade limitada de soldados protegendo uma passagem estreita de hordas de inimigos que se aproximam. Sei que todos assistiram a esse filme, no entanto, apesar de eu inclusive mencionar anteriormente que 300 soldados estavam no lugar quando o cerco começou, o conto e a história do Belkarrar não foram nem de longe baseados nos 300 de Esparta e sua termópilas.

Existiram duas principais inspirações para o conto.

A segunda (sim, vou começar pela segunda) foi a música “Time Stand Still ( At The Iron Hill)”, que conta a história de um personagem de Tolkien, Fingolfin, Alto Rei dos Noldor, que sozinho cavalgou até os portões do senhor da escuridão, Morgoth, e o desafiou para um duelo em que, tinha certeza, morreria. Arthane Galahan seria esse tipo de general, que marcharia sozinho até a morte certa, um construção até clichê, mas que tem o seu sabor e que certamente eu queria ver em algum personagem meu.

Lord of all Noldor, a star in the night; And a bearer of hope; He rides into his glorious battle alone; Farewell to the valiant warlord

E a primeira, pivô da luz que trouxe a idéia do conto, foi o evento histórico conhecido como A Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. E a forma como ele é contado, verdade ou não, é algo que seria material de canções dos bardos num mundo medieval.

Um evento bem brasileiro, Os dezoito do forte foi uma das primeiras revoltas que ocorreram durante o movimento tenentista (para quem não lembra das aulas de história, foi uma época em que militares de baixa patente tentaram mudar algumas estruturas vigentes no governo brasileiro). Descontentes com as oligarquias dominantes, os militares organizaram um levante contra o presidente Epitácio Pessoa, mas na data marcada para as manifestações, apenas o forte de Copacabana se mostrou firme ao movimento.

De início, havia 301 revolucionários, tanto militares quanto civis, não por coincidência, o mesmo número de pessoas que havia no Belkarrar. No entanto, no horário combinado – uma da manhã de 5 de julho de 1922 –, quando um disparo de canhão iniciaria as revoltas, não houve respostas por parte de outros fortes. Diz-se que o governo, sabendo do que estava sendo tramado, havia trocado os comandos para evitar amotinações. Mesmo se vendo sozinhos, os 300 de Copacabana, ao invés de esmorecerem, atiraram com uma bateria de canhões no quartel general do exército.

Não demorou para que o forte de Copacabana fosse cercado pelo resto do exército, sofrendo com intensos bombardeios durante todo o dia 5. Na madrugada do sexto dia, um telefonema do ministro da guerra ofereceu rendição aos insurgentes. O capitão Euclides Hermes da Fonseca autorizou que os que queriam debandar o fizessem. Dos 301, apenas vinte e nove restaram. Sozinhos contra todo um exército e contra um recém chegado destroyer que tinha como alvo o Forte de Copacabana. Vendo que a situação não poderia perdurar, o capitão Euclides Hermes foi a um encontro com o Ministro da Guerra, mas em vez de ter a prometida “parlamentação”, foi preso de imediato.

Aparentemente, parley funciona melhor com piratas.

O tenente Siqueira Campos, segundo em comando entre os revolucionários, sabendo que não iriam resistir no forte, tomou junto com os outros uma decisão. Iriam marchando até o Palácio do Catete, onde estava preso Euclides Hermes, combatendo quem tentasse barrar o seu caminho. Durante os primeiros tiroteios, dos vinte e  oito homens que sobraram, dez abandonaram a marcha, restando dezoito; os dezoito do forte, que continuaram o seu caminho.

À altura da antiga Rua Barroso, os dezoito do forte foram interceptados por uma tropa com quase três mil homens. Diz-se que o tiroteio que se seguiu, mesmo com os números incrivelmente desequilibrados, durou aproximadamente meia hora. Ao fim do combate, apenas os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram. O civil que permaneceu leal à causa até o fim foi uma das vítimas do confronto.

Quando fiquei sabendo do episódio dos 18 do Forte, logo pensei em quão épica seria a coisa se transportada para a fantasia. Alguns meses depois, escrevi A Queda do Forte Belkarrar que é uma espécie de homenagem à bravura dos que participaram da Revolta e uma tentativa de minha parte de colocar influências brasileiras nas minhas histórias de fantasia medieval… Embora agora vá passar por uma releitura Steampunkless.

Bem, obrigado pela atenção, possíveis leitores. O post de hoje fica por aqui. No próximo talvez eu fale sobre o Forte Belkarrar em si, sua história e importância em relação ao Reino de Darai.

Para uma fonte mais apurada do evento dos 18 do forte, clique aqui

Eduardo Gomes, sobrevivente dos dezoito na época de sua segunda candidatura à presidencia. Veja como ele mudou para sempre a história dos aniversários.

Bonus fact (or not tão fact no final): o tenente Eduardo Gomes sobreviveu ao confronto (embora Siqueira Campos tenha morrido no hospital devido aos ferimentos), participou da Revolta Paulista de 24; foi preso quando tentava se unir à Coluna Prestes; solto em 1926; preso em 1929; solto em 1930; ajudou na derrubada do presidente Washington Luís; em 35 combateu a Intentona Comunista e em 1941 foi promovido a brigadeiro. Candidatou-se a presidente duas vezes, perdeu nas duas, foi um dos líderes na campanha a favor do afastamento de Getúlio Vargas, assumiu o ministério da aeronáutica em 54 e em 64 participou do golpe militar contra João Goulart. Certamente uma vida agitada, mas seu maior legado para o Brasil não é nada disso. Contam as histórias que, na sua candidatura, as mulheres que apoiavam sua campanha, por o considerarem bem apessoado, vendiam doces feitos de chocolate e granulado para angariar fundos, batizando o quitute com a patente do militar: brigadeiro. “Vote no brigadeiro, além de bonito é solteiro!” era a mote mais usada.

 Renan Barcellos,  que bebia café com mel

e guardava uma moeda para Caronte

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6 comentários sobre “Sobre o 18 do forte Belkarrar e principalmente sobre os do Forte de Copacabana

  1. Gostei! Acho que realmente levas jeito para falar de coisas históricas.

    Tenho dois comentários (acho que tinha outros, mas esqueci):
    – que tal uma referência para os 300 de Esparta, para o caso de alguém não conhecer a história?
    – deixou de ser Steamlesspunkless e virou apenas steampunkless? =P

    Parabéns pela perseverança no blog.

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