Resenha – Alias

Uma detetive noir em um mundo com super heróis

A belíssima capa da primeira edição

Depois de quebrar com o Comics Code Authority, selo que zelava por uma censura nos quadrinhos americanos e regulava seu conteúdo, a Marvel se viu livre para criar seu próprio modelo de classificação etária. Em 2001, surgia então o selo MAX, que tinha como público alvo adultos e permitia conteúdo explícito em violência e linguajar, não precisando se limitar a restrições que eram norma na época. O primeiro título a levar MAX em sua capa foi Alias, do roteirista Brian Michael Bendis (Powers e Invasão secreta) e desenhada por Michael Gaydos (Powerless).

Alias mostra uma realidade diferente da normalmente usada pela Marvel, o universo 616, e traz a primeira aparição da personagem Jessica Jones, que mais tarde seria incorporada ao universo regular, em sua vida e investigações enquanto detetive particular da agência Codinome Investigações.

Em meio às páginas da história, existem várias referências diretas aos heróis da editora, além de aparições do Capitão America, da Miss Marvel e da agência de espionagem da Shield. No entanto, tudo é mostrado com uma ótica um pouco mais realista. Os personagens não são “onipresentes”, como comumente acontece em suas revistas, e são vistos como existências distantes do cidadão comum, como mitos reais ou super celebridades que nunca estão disponíveis, mas ao mesmo tempo, neste universo, mesmo heróis como o Capitão América são humanos falhos, com tentações e desejos, e padecem de situações que não seriam consideradas muito heróicas.

Jessica Jones vive em meio a essa realidade. Antes era uma heroína, vivendo entre o glamour da fama, em meio à ação e adrenalina de pertencer aos “heróis mais poderosos da Terra”. No entanto, na sua vida atual, vive nas sombras, com pouco dinheiro, muitos problemas e sofrendo o preconceito de ser uma detetive e o preconceito de ser uma super-heroína, de ter poderes. Olha para trás, para a época em que chamava a si mesma de Safira, e só vê arrependimentos, mas não acha sua vida atual muito melhor. Encara tudo com cinismo, amargura e pequenas doses de auto flagelamento.

Jessica Jones em mais um tedioso dia de trabalho.

A história começa com mais um caso sem graça e insuportável para a Senhora Jones. Nos balões de narração, a personagem fala sobre investigações no maior estilo noir, explicando problemas que podem surgir quando o resultado de seguir alguém não é o que o cliente espera. Em seguida, um pouco mais de problemas com alguns policiais preconceituosos, mostrando a realidade na qual vivem as pessoas com super poderes. Mas a real história do pequeno arco de Alias começa bem depois, quando, em um trabalho aparentemente normal, Jessica Jones descobre um segredo do Capitão America que pode fazer com que algumas pessoas poderosas acabem perdendo e outras acabem ganhando.

A trama investe em um estilo de noir moderno, mostrando um detetive em um trabalho que não queria investir, descobrindo algo que não gostaria de saber e então percebendo que caiu numa cilada. Que nada era o que parecia e que agora vai ter que se virar para não ser a pessoa que sai perdendo. O roteiro de Bendis é competente, a trama de investigação segue de forma bem concisa e consegue de forma muito competente apresentar a personalidade melancólica de Jessica Jones (que parece ter sido desenhada como versão feminina do escritor), além da versão mais realista e menos censurada do universo Marvel. Os pensamentos da personagem acompanharem os quadros foi uma idéia acertada, um dos principais atrativos que a série traz.

Os desenhos de Michael Gaydos conseguem não só acompanhar, como complementar a história de Bendis. Sua arte passa todo o clima sujo da cidade e preza por um estilo mais “centrado” e adulto que é o alvo do selo MAX. O enquadramento não se prende a uma “grade”, ditando todo um ritmo para a leitura que acompanha o roteiro, sobretudo nas sequências de conversa ou interrogatório. O artista também foi competente no uso das sombras e da iluminação, fazendo com que cenas “simples”, como Jessica Jones sentada tomando café, tivessem todo um significado. Os desenhos possuem certa “poesia” e parecem carregar o estado de espírito da personagem. Além de tudo isso, as capas por David Mack são um espetáculo á parte.

Amostra da Arte de Gaydos

O encadernado publicado pela Panini apresenta três arcos de história, que compreendem dez edições americanas. O primeiro deles é de longe o melhor, com a história mais complexa, que gira em torno de intrigas a nível governamental, e que mostra mais facetas do personagem e do cenário. Nem mesmo o Deus Ex Machina que acontece consegue apagar seu brilho.

O segundo, uma trama sobre o sumiço de Rick Jones, amigo de Bruce Banner e que não é parente de Jessica, revela mais sobre o submundo dos heróis, onde nem todos brilham ou estão fadados aos holofotes. Não é tão bom quanto a primeira investigação, mas traz passagens interessantes de um livro que fala sobre como é viver entre os super-poderosos. Uma boa história, mas que tem um ritmo menos contagiante que a primeira.

No terceiro arco, que possui apenas uma edição, tem-se uma pequena história onde Jessica Jones mal aparece. Na trama, a detetive é contratada por J.J. Jameson para descobrir a identidade do homem-aranha. Um estilo diferente é usado aqui, muito diferente das demais histórias em quadrinhos. As páginas contêm quadros agigantados que mais parecem pinturas e não possuem balões de fala ou narração, mas mostram grandes sequências de diálogos ao longo das imagens.

A Arte da décima edição americana

O tratamento que a publicação recebeu pela Panini é de qualidade, sendo um encadernado de capa dura e papel especial voltado para livrarias (o que justifica o preço salgado e qualidade física elevada). A tradução é competente, mas já que foi mantido o nome original da série, Alias, não existe motivo para traduzir o nome do escritório de Jessica. É desnecessário a tradução de Alias Investigations para Codinome Investigações. Uma nota de rodapé seria o suficiente e mostraria um dos sentidos do título para os que não dominam o inglês.

Alias é uma publicação de peso. Possui uma história competente e desenhos a sua altura. Apesar de tocar temas como super-heróis, seu material é bom o suficiente para agradar mesmo aqueles que detestam o tema. Ganhadora de dois Harveys e indicada a dois Eisners, a série é muito mais que uma trama de super-poderes, é uma história sobre uma detetive amargurada. Bendis já havia mostrado sua capacidade com o gênero em Powers, e em Alias mostra que ainda não perdeu a mão.

Renan Barcelos, que tinha terminado o café em sua caneca londrina

e se perguntava o quão rápido partiria, mesmo não roubando bancos.

Diversas etapas da vida de Jones. Uma pena que depois de incorporada ao universo regular, uma das melhores personagens femininas dos quadrinhos americanos perdeu muito de sua cor.
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3 comentários sobre “Resenha – Alias

  1. Boa resenha. Mas preciso admitir que sua resenha a faz parecer melhor do que achei de fato. Nesse caso específico creio que é um ponto a seu favor, pois você destaca coisas que alguns leitores (e eu leitora) podem não notar, e que sem dúvida engrandecem o trabalho.

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