História Não Publicada – Capítulo 1

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Um tiro varou a janela. Vidro banhou sua calça jeans e teve certeza de que alguns cacos feriram sua cabeça. Agora eles tinham armas. Armas. Que bosta de sorte. Pensou em correr para o outro lado da sala, mas aí outro tiro foi lá e acertou o quadro com a montanha, aquele que ficava perto do balcão. Era um puta quadro, mas, bem nunca ouvira falar de um quadro que ficasse bem com um furo no meio.

Furo no meio… De alguma forma isso era meio western, mas que se foda.

The Poet and The Muse. The Poets of The Fall. Não sabia porque desgraça a música veio à sua cabeça, não tinha motivo. Não, tudo bem, tudo bem, havia um motivo, havia alguns na verdade. Não tinha nenhum Tom no lugar, se houve uma musa em sua vida, se esqueceu disso faz tempo. Quanto ao lago? Bom, tinha uns dois por ali, mas não como Aquele. A cidade era velha, isso realmente era. Mas se tinha alguma bruxa no casebre não seria nenhuma dama da luz, apenas mais um daqueles fodidos tentando arrancar sua pele. De qualquer forma, a música martelava em sua cabeça, trazendo coisas que não queria lembrar.

Algumas batidas saíram do ritmo da canção. Sempre achou que fosse bom em gravar ritmos, mas isso não era importante naquele momento. Afinal, o som de madeira quebrando não fazia parte da música que dominava sua cabeça.

Um machado, muito bom. Os filhos da puta tinham conseguido um machado. Na verdade não deveria se espantar. Aquele tipo de história SEMPRE tinha um machado, quer dizer, tinham que quebrar as portas de alguma maneira não é?

Uma das tábuas começou a ceder, mas não se importou. Na verdade, se importou pra caralho. Apressou a caneta em sua mão e sua letra se tornou um rabisco. Ia ser uma merda pra entender aquilo depois, mas tinha que terminar de qualquer forma. E pra terminar tinha que sair vivo dali. Ou seja, uma frase clichê para uma coisa clichê.

Guardou as folhas dentro da mochila pesada sem lembrar de numerar, alguma hora iria perceber e iria xingar pra caralho. Ou talvez aquilo só fizesse parte de sua história.

Tirou o revolver do bolso e olhou para a arma. Aquela porra era pesada. Mais pesada do que imaginava. Ainda não tinha usado. Tinha medo de usar, se cagava com a ideia de dar um tiro. Medo do barulho? Medo de matar? Porra nenhuma. Desde sua adolescência sabia um monte de merda sobre armas, ou, pelo menos, achava que sabia. Culpa da internet e dos jogos de tiro em primeira pessoa, Call of Duty e essas merdas. Não atirava porque tinha medo de fazer a coisa errada e perceber que não sabia nada sobre armas de fogo, um problema de auto-estima muito menos complicado do que toda aquela situação, mas que, de alguma forma conseguia deixar tudo mais difícil.

Ouviu mais um tiro e a montanha ganhou mais um buraco. Que diabos eles tavam pensando, afinal de contas? Quer dizer, atirar na porra do quadro não iria fazer ele aparecer. Ou talvez sim, porque se levantou meio abaixado, a calça rasgando naquele prego que o dono da pousada disse que tinha que consertar e se preparou para enfrentar a tormenta. Mas era uma tormenta diferente, nada como a tormenta daquele seu colega do grupo de escrita. A dele deixava o escritor com um writter’s block do caralho. Essa era mais perigosa, usava gente, que usava machados e talvez revolveres ou pistolas, não sabia dizer só pela cadencia dos tiros. Pensou que saberia. O que importa é que a tempestade vinha e queria arrancar sua vida, talvez os dedos primeiro, só para se divertir, mas ela não lhe tirava a criatividade, pelo contrário, lhe dava uma história, e não era justamente isso o que procurava? O que perseguia?

Um tiro assoviou próximo à sua orelha, mas dessa vez acabou na parede, poupando o quadro de mais avarias. O escritor corria, agora sem escrever, mas a história ia se desabrochando a sua frente. Lembraria de tudo aquilo quando parasse para escrever? Achava que sim. Achava que não. Provavelmente a maior parte. O que não lembrasse iria inventar, na verdade, inventaria mesmo que se lembrasse da porra toda. Pedira por idéias, não por um livro pronto de qualquer forma.

Pra chegar onde queria tinha que passar pela porta da frente. Pelo menos tinha certeza que aquele corredor minúsculo como a imaginação de um robô não iria ter gente dessa vez e podia passar correndo como o diabo fugindo de… de… De qualquer coisa que não fosse uma cruz. A porra do piso estava encharcado com água. Parou. Não queria torcer o pé ou alguma coisa assim. Final horrível para uma história. “E então ele torceu o pé e se fodeu”. Não, claro que não podia terminar assim. Nem ele e nem a história.

Tentou não olhar para a porta principal. Mas acabou olhando. O machado acabava de recuar e mais uma das tábuas da porta da pousada acabou se soltando. As outras já estavam rachadas. Um rosto apareceu pelas frestas, era o dono da pousada. O escritor tinha certeza que ele iria sorrir como Jack Nicholson e por algum motivo o imaginou dizendo “Mr. Anderson!” Mas ele não fez nenhuma das duas coisas. Ao invés disso olhou para o escritor com raiva e gritou:

– Minha pousada!

Nunca soube o que diabos o dono do estabelecimento queria dizer com aquilo, e muito tempo depois de tudo aquilo ter acabado provavelmente se lembraria do episódio e se martirizaria por não ter sabido que porra foi aquela. Não fizera nada com a porra da pousada, era ele que arrebentava o lugar com machadadas. Tudo o que podia saber no instante é que o grito lhe assustou pra caralho e aí revolver em sua mão ganhou caminho até sua percepção.

Eastwood. Ocelot. O cotovelo prendeu-se à cintura, o cano da arma apontado para a cabeça do sujeito, que já baixava o machado mais uma vez. O escritor atirou. O barulho não assustou, o coice da arma sim. Caralho, que porra de recuo era aquele? Não acertou a cabeça, mas pelo menos o homem caiu. Passou em sua mente escrever que a testa lançou-se para trás com o impacto do tiro e o estalajadeiro caiu para trás, arremessado. Mas na verdade o homem só colocou a mão no peito e caiu, dando lugar a outro morador daquela cidade fodida.

“Fuckin Bruges”, pensou. Mas ali não era a Bélgica, ainda estava na Bahia. Demorou um instante pensando aonde teria acertado, mas um segundo olhar para a multidão irritada, ensandecida o fez pensar mais uma vez sobre suas prioridades. Se convenceu de que foi no pescoço, mesmo mais tarde isso não fazendo sentido, já que o homem levara a mão ao peito, e partiu.

“Foda-se essa merda”. Murmurou e correu sobre o molhado. As botas até que deram um pouco de atrito, mas por pouco não escorregou. Chegou até a cozinha e se lembrou de algum filme, ou talvez apenas criou em sua mente uma cena que nunca vira de verdade. Olhou para os lados e estas constatações deram lugar a uma ideia  Viu pano, vidro e álcool. uma das poucas palavras russas que conhecia incendiou sua mente.

Molotov.

De alguma forma falar aquilo parecia interessante. Repetiu incessantemente até que o momento que reuniu todo o material. Logo a inocente garrafa vazia de cerveja havia se tornado em uma arma muito interessante. Voltou-se para o corredor atrás de si e se divertiu com as paredes de madeira. Como dois fios em curto dentro de seu cérebro  veio a constatação de que ainda tinha que acender a porra do pano, a dor do choque foi física, atravessando o fundo de sua cabeça. Percebeu que nunca lembrava dessa parte quando pensava em molotovs. Mas aí não pensou muito mais. Estava numa cozinha.

Ligou o fogão, apressado. O machado já não fazia mais barulhos. No entanto um pé se chocava contra a madeira da porta. Não sabia se os seus perseguidores perceberam que não precisavam atravessar por dentro da porta e que poderiam arromba-la com um chute ou se perdiam tempo chutando pedaços de madeira destruída. Acendeu a ponta do pano enquanto pensava que seria uma ideia do caralho ter trazido um gravador e baterias, gravar toda a agitação, vozerio e ruídos de exaltação trariam todo um arsenal para se lembrar do que deveria por no livro.

Lançou o molotov nos pés de uma mulher que aparecera no corredor apertado. Não ficou para ver o resultado, por mais instrutivo que pudesse ser. Nunca vira alguém sendo decapitado e ainda assim descrevia o ato, podia supor com uma pessoa queimando também. Não ficaria ali para ver se a madeira das paredes e do teto iriam queimar, achava que talvez. Por via das dúvidas lançou as garrafas de álcool sobressalentes ao chão.

Correu até o fim da cozinha e passou para uma das salas que os funcionários usavam. Divisou a porta dos fundos que lhe tiraria daquele lugar, mas por um segundo pensou em não usa-la. Seria tão mais heroico usar a janela como rota de fuga, atravessar o vidro como fizera uma das balas que crivaram o quadro da montanha e cair do outro lado rolando no chão. Mas não era que nem aquele personagem. O que matava fadas. Então tomou o caminho que certamente não lhe traria fortuna, mas que traria toda uma nova ação para o livro.

A porta se abriu antes que chegasse até a maçaneta. Claro que um deles iria dar a volta no lugar. Normalmente é assim que acontece. Sempre alguém se desprende da horda que ataca a porta da frente e surpreende pelos fundos. Mas o escritor já imaginava que isso fosse acontecer e tão logo viu o recém-chegado, disparou com o revolver. Errou.

Uma faca atravessou o ar e atingiu sua face. Não com a ponta, mas com o cabo. “Roland, “Tull”, se lembrou. Atirou como o pistoleiro, e dessa vez não errou. Nenhuma magica de recarregar veio depois, só tinha três balas e muita gente ao seu encalço.

Atravessou a porta e ganhou o ar livre. Enquanto corria imaginava que deveria haver gritos. Sentia o cheiro de chamas, fumaça e carne queimada. Mas gritos? Nenhum. Achava que eles estavam lá, mas tudo o que ouvia eram as palavras que viria a escrever.

Com arma em punhos correu pelo terreno. Teve quase certeza de que ninguém o viu, mas mesmo assim correu. Era questão de tempo, sempre de tempo, até que o encontrassem. Pulou um muro e desviou do caminho mais óbvio. Atravessou duas quadras sem ver uma alma hostil. Sem ver uma alma.

Quando chegou ao armazém não olhou ao redor. Arquejou e se deixou cair em um canto. O momento perfeito para ser surpreendido.

Quando notou a pessoa e a arma não se deixou abalar. Era para estar ali, de qualquer forma. Era o instante para isso.

Ouviu o “click” do cão ser engatilhado.

– Cliffhanger- foi o que disse à meia voz.

Renan Barcellos,  que tinha terminado suco 

e que dessa vez, dessa vez não ouvia musica alguma

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