História Não Publicada – Capítulo 2 – Parte 1

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Capítulo 2

O Escritor olhava para o cano da arma, cansado. Não parecia com medo ou mesmo assustado. Deixava os olhos pousarem no instrumento de morte com a morosidade de quem não pretende lutar contra o destino. Tinha certeza de que aquele não era o seu momento, uma história não terminava daquela forma. “Hoje não, morte”, pensava. Mas, em seu íntimo duvidava de suas ponderações. E se estivesse errado? E se não fosse o protagonista, afinal? Mirando o túnel do revolver inimigo tentava, com a visão periférica, perceber alguma coisa daquele que o rendera. Era um rapaz negro, com roupas folgadas. Não discerniu mais do que isso.

Ele parecia falar alguma coisa. Gritar. Mas, perdido em seu próprio mundo pessoal, o escritor não ouvira.

– Quem é você, caralho?! Vou ter que perguntar de novo é? – a sombra da arma aumentava a ameaça.

– Alguém que não esta querendo enfiar uma bala em sua cabeça, não é o suficiente numa noite como essa? – Perguntou com um meio sorriso.

O rapaz apertou os lábios, inquieto. Toda sua expressão corporal traduzindo medo, dúvida e confusão. Engatilharia a arma novamente, se pudesse.

– Não vai dar uma de esperto comigo, filho da puta. Fala logo quem cê é, desgraça.

Não pôde deixar de rir, o escritor. Quem ele era… Quem ele era? Um filme de comédia lhe dissera que era um tanto difícil dizer quem era. Podia dizer o que fazia e, caso isso não bastasse, goosfraba.

– Eu. Eu sou um escritor.

Não era a resposta que o garoto esperava. Mas a verdade é que o jovem não sabia o que queria ouvir. Botou a mão desarmada na fronte e, a beira de perder a razão, pediu por algo que certamente não o ajudaria.

– Nome!

Um gesto de descaso iniciou a resposta do escritor.

– King, Lovecraft, Vianco, Wake, Baruch, Poe… Não importa. – Sorriu. Seu rosto uma mascara de cansaço – Nenhum nome diz o que sou. E o que sou é um escritor. O que faço de minha vida é… Escrever.

Irritado o outro já começava a esbravejar, apontando o dedo para o Escritor e, sem perceber, baixando sua arma. O homem, mesmo cansado, percebera tal erro, ele era observador, ou, pelo menos, imaginava que sim, e naquele momento sua idéia de si mesmo não o traiu. No entanto, não sacou o seu revolver. Sua verdadeira arma eram as palavras.

– E você?! Quem é você? Faz alguma idéia de quem é? Quantos matou só essa noite?

As perguntas saíram como acusações e atingiram o seu alvo. Fosse qualquer outro dia, uma bala sairia daquele revolver alheio para alojar-se em seu corpo. Mas Emílio havia passado por muito aquela noite e sua raiva aparente não passava de um misto de medo e frustração. Matara pessoas. Pessoas queridas.

– Eu, eu matei…

– Claro que matou! Mas quem é você?! – Fisgara a atenção, mudaria o rumo da conversa por uns instantes.

– Emílio. Mas eu…

– Isso é seu nome, o que você faz, como é sua vida?!

A essa altura arma já havia sido esquecida.

– Música, eu… eu faço as letras, canto às vez…

Olhou para o rapaz, de não mais que dezoito anos e suspirou.

– Emílio, você é um Músico, eu sou um Escritor. Percebe, é tudo que precisamos saber neste dia de loucura e morte. – Começou a, bem devagar, se levantar – O que importa é que não queremos nos matar à primeira vista. Eu tenho consciência, você tem consciência e podemos dar um jeito nisso.

Começou a se aproximar, bem devagar. Não fazia idéia de como as merdas que tinha dito tinham feito o garoto baixar a arma. Mas, funcionava, era tudo o que precisava saber. Aliás, provavelmente Emílio QUERIA acreditar nele, precisava de alguém que não estivesse tentando apunhalá-lo, que falasse coisas com pelo menos algum tipo de sentido. E isso o escritor sabia fazer, ao menos esperava que sim.

– Olha aqui, deixa eu te mostrar…

Movimento errado. Não tinha idéia sobre porque resolveu tirar a porra da arma do bolso e mostrar para o Músico. Mais tarde se perguntaria porque não continuava enrolando como estava fazendo, podia fazer qualquer coisa, menos mostrar um revolver, perigoso e letal, para quem já tivera sua vida ameaçada e estava com nervos em frangalhos. Tudo por uma história melhor. Bom, agora iria ter que fazer alguma coisa.

Renan Barcellos, que mesmo bebendo coca morria de sono

e que não estava tão certo da beleza da vida ao redor do mundo

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2 comentários sobre “História Não Publicada – Capítulo 2 – Parte 1

  1. “– Nome!

    Um gesto de descaso iniciou a resposta do escritor.

    – King, Lovecraft, Vianco, Wake, Baruch, Poe… Não importa. – Sorriu. Seu rosto uma mascara de cansaço – Nenhum nome diz o que sou. E o que sou é um escritor. O que faço de minha vida é… Escrever.”

    Na boa ‘-‘ se fosse eu já tinha atirado de tanta irritação xD.
    Fazia tanto tempo que não ouvia essa música… de repente o mundo pareceu um tiquinho mais triste.

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