História Não Publicada – Capítulo 2 – Parte 2

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– Olha aqui, deixa eu te mostrar…

Movimento errado. Não tinha ideia sobre porque resolveu tirar a porra da arma do bolso e mostrar para o Músico. Mais tarde se perguntaria porque não continuava enrolando como estava fazendo, podia fazer qualquer coisa, menos mostrar um revolver, perigoso e letal, para quem já tivera sua vida ameaçada e estava com nervos em frangalhos. Tudo por uma história melhor. Bom, agora iria ter que fazer alguma coisa.

– Baixa essa desgraça! – Emílio voltou a seu estado alerta.

– Calma, calma porra!

Abriu o tambor da arma de fogo com uma paciência que não imaginou que tivesse e tirou as três capsulas vazias.

– Está vendo isso aqui? Três tiros. Três pessoas. Três mortes. Caralho, três mortes.

Jogou uma das capsulas para o chão.

– Um desconhecido que jogou uma porra de uma faca em mim. – Não ousou arriscar o gesto de apontar pro próprio rosto – Ta vendo essa marca em minha testa? Foi o cabo, não a lâmina que acertou. “Kaka”. – Sorriu um sorriso enviesado.

Jogou a segunda no chão. Ela tintilou como uma moeda e se perdeu embaixo das prateleiras atulhadas de caixotes.

– Essa para o dono da pousada Colina da Sorte. Não jogou nada em mim, mas insistiu em abrir um buraco na porta como se fosse a porra do Iluminado.

A Terceira segurou na palma da mão, apertando-a.

– E uma para… Para… Caralho, para minha noiva – A cara de sofrimento que fez era quase crível, mas foi o suficiente para Emílio. Claro que o Escritor não iria lhe dizer que não havia esposa alguma e que este fora um tiro que errara.

Deixou a ultima capsula ir ao chão e, tal qual uma caneta de um outro tempo, de uma outra história, nunca mais foi encontrada.

O músico começou a dizer alguma coisa. Algo sobre sua irmã. A mão ainda estava em riste, apontando para o peito do escritor. Mas o escritor novamente nada ouvia. A arma era seu foco outra vez. A arma e suas lembranças.

Philip Marlowe em O Lápis. Gay Perry em Kiss Kiss Bang Bang. Um metro e meio de distancia.

Tão rápido quanto podia, levou a mão direita até a arma, o dedão travando o gatilho pela parte de trás. Com uma joelhada incapacitou Emílio, a mão desocupada tirou o revolver de sua direção e ajudou a outra a desarmar o garoto. Mas as coisas aconteceram dessa forma apenas em sua mente.

Rápido não se pode negar que foi. Mas também foi ingênuo ao pensar que realizaria a manobra com a precisão necessária. Com medo de disparar a arma acabou levando o dedo muito adiante, chocou-o dolorosamente contra o lado do revolver.

Os olhos do músico se arregalaram e o escritor percebeu que tudo estava errado. Pulou a parte da joelhada e puxou a arma para o lado com a mão esquerda. O disparo veio, a bala raspou em seu braço. Foi como se alguém o riscasse rapidamente com um lápis. A dor veio e quase se deixou dominar. Mas o garoto também se assustara, afrouxou seu segurar e perdeu a arma.

– Ai caralho! Meu braço!

Emílio olhou para os lados, desesperado. Perdera sua única proteção e viu o jogo se inverter. Recuou, tateando uma prateleira atrás de si, procurando um caminho que lhe trouxesse uma rota de fuga.

Com a mão no braço, o escritor praguejava. Não estava preparado para um tiro, para se ferir de verdade. Mas se aquilo era mesmo uma história, era inevitável. Mas porra, como aquela merda doía.

– Pera aí Emílio. Espera aí. – Vociferou entre os dentes, lutando contra a dor – Peguei sua arma porque você tava apontando a desgraça para minha cabeça.

“All my life i’ve been searching for something, something never comes never leads to nothing, nothing satisfies but i’m getting closer…”

Balançou a cabeça, tentando manter o foco e continuou.

– Caralho, parecia mais fácil no filme. Puta que pariu, que dor.

Olhou para Emílio, que ainda tentava fugir e fez um gesto, um pedido para que parasse.

– Toma aqui essa porra de arma.

Fez menção de avançar, mas isso intimidou seu companheiro.

– Porra, sério, não tenha medo. As ruas estão cheias de filhos da puta querendo arrancar nosso couro e dar de presente para Mammon, Cthulhu, Beelzeboss ou sei lá que caralho. Olha pra minha cara e diz se pretendo meter uma bala no único cara que até agora não gritou coisas incoerentes e jogou alguma coisa em cima de mim.

O garoto parou, mas ainda assim não avançou. Ficou calado, olhando para o rosto do escritor e ponderando. Seus pensamentos eram apenas dele.

– Certo, certo. Que tal assim? – Colocou a arma de Emílio em cima de uma das prateleiras do armazém e se afastou dela. Manteve a sua á mão, contudo. Não confiava no músico e não sabia o quão esperto ele era.

Emílio pareceu ainda hesitar. Contudo, antes que pudesse realmente decidir o que queria fazer, frases mal formuladas atravessaram as paredes do lugar e fizeram gelar o sangue dos dois presentes. O escritor olhou para o músico com os olhos arregalados.

– Pega logo essa porra!

 

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