História Não Publicada – Capítulo 4 – Parte 2

Para entender melhor este projeto (sério, é importante!).

Leia o primeiro capítulo

Não gostei desse filme, mas ele é referenciado no texto, sooo…

 

Carrancudo, anteriormente o escritor pegou um caderno e folhas avulsas. Pensou em numerar a porra toda para depois não se perder. Mas não queria perder tempo. Uma parte lateral de sua cabeça, logo atrás das têmporas, urgia, clamando para que derramasse nas paginas o que passava em sua cabeça. Começou a escrever o que lhe vinha à mente, sobre o que havia passado nos momentos que vivera nas ultimas horas. Completava informações, escrevia capítulos novos. A caneta nanquim de ponta 0.5 riscava as paginas como um louco açoitando sua vítima com uma faca. O que escreveu era frenético, sem noção, sem técnica e sem seu característico linguajar arrojado.

Se Emílio pensou em falar alguma coisa, desistiu. Algo nos olhos do Escritor podem tê-lo demovido do intento. Mas algo nos modos do homem que escrevia também trouxe um estranho sentimento de piedade e compaixão. Algo que lhe trouxe uma inusitada confiança. Parece que não eram só os campos de batalha que faziam estranhas amizades. Não era essa a frase que procurava o escritor, mas foi a que lhe veio à cabeça.

Em algum momento os modos do Escritor refrearam, passara do momento em que canalizava sua raiva, mágoa e quaisquer sentimentos e palavras que dominassem seu coração, agora apenas escrevia, continuando uma história. Emílio notou a diferença, era uma grande diferença. E então possivelmente achou que poderia falar.

Quando o garoto tornou a abrir o elo de comunicação que tinha subitamente se fechado algumas dezenas de minutos atrás, sua voz tinha um quê de súplica, algo como uma dúvida dispensada para aqueles a quem se doa confiança.

– O que cê acha? Desses zumbis e coisa assim?

O Escritor não levantou seu rosto do papel. A caneta ainda corria por linhas em branco, preenchendo-as com vida e história. Escrevia sobre escrever, sobre momentos muito, muito próximos àquele exato instante em que vivia.

– Hmm?

Deu a entender que não tinha ouvido. Mas antes que Emílio pudesse fazer a pergunta novamente, respondeu à pergunta que lhe fora lançada.

– Não são zumbis. Sério, não são. Podem ser qualquer coisa, mas zumbis não são?

– Como assim não são zumbis? Eles parecem muito com zumbis, eu vi filmes. Aquele que as pessoas pegaram um tipo de, de raiva. Por causa de uns cientistas, de uns experimento. Alguma porra assim, sei lá.

– Olha. Assim. Normalmente se trata como zumbi as criaturas que de alguma forma estavam mortas e foram redivivas – a expressão de dúvida o fez corrigir a palavra que usara – Revividas. Revividas. E nos últimos anos entrou na cultura popular alguns veículos que mostravam zumbis como sendo humanos de alguma forma infectados, como o filme que você citou. Twenty four days later, ou algo assim, se me lembro direito.

Tirou os olhos das paginas, mas não olhou para o músico. Mais parecia perdido em pensamentos. Ou, como disse Poe certa vez, falando com alguém muito distante. Na rua Morgue talvez. E eram Twenty Eight.

– O principal de um zumbi é a questão da transmissão de sua doença, vírus ou qualquer magia negra sobrenatural do capeta que tenha feito ele levantar do chão, não do caixão, porque eles não tem como abrir o caixão com sete palmos de terra em cima, não acredite nessas merdas. Contudo, as pessoas que nos atacaram não estão tentando nos morder, capturar para levar para algum lugar macabro ou tentar transmitir qualquer coisa que seja para nós. A não ser que de alguma forma eles saibam que seja lá o que deixou eles neste estado pode passar para a gente, mas isso seria um tanto quanto improvável. Sem contar também que uma transmissão clássica de virus zumbi não acontece assim de uma hora pra outra em todo mundo. Isso é o ponto principal eu acho. Todo mundo parece ter sido afetado ao mesmo tempo, todo mundo mesmo. Acho que vi umas quatro pessoas mortas por aí, mas tirando elas, todo mundo foi afetado e partiu para cima de mim assim que identificaram que eu não estava com ele. Isso não é coisa de zumbi. A não ser que estejamos falando de zumbi voodoo, mas eu prefiro falar, aí teríamos um ritual voodoo dos grossos pra gente encarar, que afetou todo mundo de vez. Prefiro falar de zumbis comumente usados na cultura pop.

Renan Barcellos, Que tinha bebido suco de acerola

e que gastava horas, dias incontáveis

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