Resenha – Cai o Pano: O Último Caso de Hercule Poirot

Chave de Ouro Para o Fim da Saga do Detetive Belga

Uma capa simples, talvez.

Reconhecida como a Rainha do Crime, Agatha Christie começou sua carreira com um personagem que viria a acompanhar toda a sua vida literária. Figurando em trinta e três romances policiais, metade das que a escritora viria a escrever, Hercule Poirot se tornou um personagem conhecido no gênero das histórias investigativas, ultrapassando a barreira das páginas e marcando presença em diversos filmes, além de possuir uma série de televisão iniciada em 1989. Em Cai o Pano, como o subtítulo do livro promete, o leitor pode ver o ultimo caso de um dos mais longevos personagens dos romances policiais.

Apesar de declaradamente inspirado em Sherlock Holmes, a criação de Agatha Christie possui uma vida própria e longeva, aparecendo em dezenas de livros ao longo de mais de cinqüenta anos, certamente se tornou uma figura única e notável com sua cabeça em forma de ovo, temperamento arrogante e o tão bem cuidado bigode ao estilo militar. Um livro sobre a última investigação do detetive que se apóia em “suas pequenas células cinzentas” – com o passar do tempo considerado intratável, cansativo e “um sujeitinho egocêntrico e detestável” por sua autora – poderia dar errado de diversas maneiras, contudo a Rainha do Crime, apesar de alguns tropeços, conseguiu dar um fim merecido às histórias de seu personagem mais famoso sem sair de seu estilo.

Como última história do detetive, a trama inicial do livro já começa acertando. Convidados a uma reunião de ex-militares, a dupla Poirot e Hastings se reencontram na conhecida casa em Styles Court, palco do primeiro romance escrito por Agatha Christie e do primeiro caso em que os dois personagens trabalharam juntos. Como não acontecia a muitos livros, Hastings volta a ser o narrador, fazendo uma combinação com apelo aos saudosistas das primeiras aparições do detetive Belga e também fechando a saga do personagem no mesmo lugar em que ela começou, como em um tributo.

Sim, um sujeito de bigode peculiar.

A carta que Poirot envia a seu companheiro soa como um descanso e de uma oportunidade de relembrar aos velhos tempos, mas como é de se esperar, há um assassinato para acontecer. Como é de praxe nas outras reuniões da dupla, o detetive Belga não dá toda a informação que tem para Hastings, mas neste caso há uma grande diferença: Hercule Poirot já sabe quem é o assassino, sua missão é descobrir qual será próxima vítima e pensar em como levar um criminoso que comete crimes perfeitos à justiça.

Apesar do diferencial na trama, a narrativa segue de forma semelhante a outros livros de Agatha Christie. Contudo, isso não é de todo ruim. Um leitor acostumado com as histórias da Rainha do Crime irá encontrar uma história policial concisa e com todo espaço para especular qual a identidade do futuro assassino – que não foi compartilhada com Hastings devido a, segundo Poirot, ele ser um péssimo mentiroso.

A coleção de personagens e possíveis suspeitos que podem ser encontrados na história são, em geral, os mesmos tipos de personagens que podem ser encontrados em outros livros da história. Haverá quem o leitor deteste, quem ele confie e de quem sinta pena, no entanto, apesar de haverem semelhanças inquietantes, os personagens conseguem se mostrar únicos e descobrir os motivos para seus comportamentos e ações é tão interessante quanto especular a identidade do assassino.

Essa imagem já apareceu na resenha de O Expresso Oriente, mas na verdade ela mostra Poirot em um caso no famoso trem.

Como em seus outros livros, a narrativa de Agatha Christie é leve e pouco descritiva, prezando diálogos e os acontecimentos que cercam os personagens, sempre tendo o cuidado de amarrar às cenas ao mistério que está sendo investigado. Como narrador em primeira pessoa, Hastings praticamente representa o leitor em sua interação com o mundo e, principalmente, com Hercule Poirot, o que colabora muito para a idéia de que a investigação está sendo feita desde o início que a mente e os métodos de Hercule Poirot são tortuosos e enigmáticos. O método acaba gerando certo pré-conceito acerca os personagens, já que o que é visto são impressões que Hastings tem sobre eles. Certamente parte da técnica da autora em desviar as atenções e lançar dúvidas no leitor.

Apesar dos diálogos serem ágeis e, em geral, satisfatórios, nas cenas em que o ajudante de Poirot conversa com sua filha Judith, as falas parecem muito exageradas e as situações forçadas, chegando ao ponto de tudo parecer inverossímil. Outro porém, é que a despeito da autora poupar nas descrições e cenas, o final do livro parece um tanto quanto corrido, inclusive havendo uma cena que merecia um destaque maior, dado ao seu peso, e possuiu apenas uma breve menção.

Ao percurso do livro, pode parecer para o leitor que Cai o Pano não é uma aventura digna do ultimo caso de Hercule Poirot, já que, adoentado e de saúde frágil, o detetive quase não sai de seu quarto, deixando toda a interação por parte de Hastings que, como o baixinho belga diz, lhe estaria lhe servindo de olhos e ouvidos. Contudo não só na revelação do assassino e de seu método que lhe fez escapar de mais de cinco crimes sem nenhuma acusação, as ações e a astúcia de Poirot surpreendem, dando ao livro que parecia moroso um bom fechamento. E é principalmente devido a esse término que a obra como um todo constitui um excelente fechamento para a vida de investigações do detetive belga.

 

Trivia: Agatha Christie escreveu o livro em 1940, temendo que poderia morrer durante a segunda guerra e querendo dar um fim às histórias de Poirot. O livro ficou trancado em um banco por mais de 30 anos e só foi retirado quando ela não conseguia mais escrever devido a idade avançada.

Renan Barcellos, que dessa vez bebeu suco 

e que não ia desistir

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