Resenha – O Tigre de Sharpe

O início da carreira do Rambo britânico

Capa nem boa nem ruim. Mas chama atenção, tem cara de algo histórico ou coisa parecida.

O escritor britânico Bernard Cornwell é conhecido no Brasil principalmente por seus livros que tratam de temas medievais, como Crônicas Saxônicas, as Crônicas de Arthur e a Trilogia do Graal e neles consegue mostrar um estilo muito característico, unindo fatos, possibilidades e personagens fictícios para apresentar romances históricos muito focados em guerras, grandes conquistas e batalhas. Tudo muito realista e verossímil, mostrando um lado nada fantástico dos combates e da vida que se levava na época. Contudo, as épocas onde espadas, escudos e machados dominavam não são as únicas ambientações das quais se valem o autor, sendo a sua maior série ambientada nas guerras napoleônicas e no fim do século XVII. Além de composta por mais de vinte livros, os primeiros tomos d’As Aventuras de Sharpe foram também os primeiros livros que o escritor publicou.

Conhecido no exterior como o maior personagem de Cornwell, inclusive tendo uma série sobre sua histórias (estrelada por Sean Bean, o Ned Stark de Guerra dos Tronos), Richard Sharpe é um oficial inglês marrento e de baixo nascimento, tendo ascendido em campanha nos postos do exercito britânico e portanto sofrendo de preconceito por parte de seus colegas. Nos primeiros livros escritos por Cornwell, o personagem está na Europa, nas tropas militares sob a responsabilidade pelo, naquela época, General Arthur Wellesley – primeiro duque de Wellington, futuro primeiro ministro e futuramente responsável pela derrota de Napoleão em Waterloo.

O livro O Tigre de Sharpe, embora não seja o primeiro escrito pelo autor, é cronologicamente o primeiro das histórias de Richard Sharpe. Na obra, as Guerras Napoleônicas ainda não começaram, Napoleão é conhecido apenas como um militar francês atrevido e Wellesley tem muito pouco crédito no exército britânico. Ambientado no Mysore, Índia, em 1799, no final da quarta guerra entre os ingleses da Companhia das Índias e o Reino do Mysore, o livro mostra um jovem Sharpe como soldado raso e iletrado, competente, mas insatisfeito com a vida no exército, seriamente pensando em virar a casaca e desertar em prol dos franceses. Atormentado e enganado pelo sargento Hakeswill, o protagonista acaba indo para o tronco ser chicoteado, mas no ultimo instante acaba sendo escolhido para a perigosa tarefa de, junto ao tenente Willian Lawford, se embrenhar na cidade de Seringapattan, onde reside o responsável pelas forças do Mysore – o Sultão Tippu – e resgatar as informações conseguidas por um oficial de alta patente que havia sido capturado; e que possui uma informação que pode salvar o exército inglês de uma armadilha.

Pelo o que ouço dos feitos dele, tá quase pra isso mesmo.

Diferente da maioria dos outros livros de Bernard Cornwell que foram publicados no Brasil, O Tigre de Sharpe não é narrado em primeira pessoa. A história é vista em terceira pessoa, quase toda sob a perspectiva de Dick Sharpe, mas tendo também pontos de vista de outros personagens, uma medida que se faz necessária para mostrar tanto o que acontece dentro da cidade de Seringapattan quanto as preparações do exército britânico no cerco à cidade, bem como mostrar como conseguiu-se a informação sobre a armadilha que Tippu havia preparado para os invasores. Apesar de haver essa diferença em relação às outras séries, o recurso não é tão explorado quanto poderia, se concentrando quase que exclusivamente em Richard Sharpe e por vezes mostrando algum outro aspecto da trama. O que não é exatamente bom ou ruim.

Apesar da desta diferença em relação à narrativa – e também à própria ambientação não medieval – um leitor veterano de Cornwell encontrará as principais características das histórias do autor. Os combates são muito bem descritos, violentos e realistas, mostrando muito bem não só o funcionamento das armas e estratégias daquela época, como também da própria instituição militar britânica, inclusive comentando sobre diferenças entre os britânicos e os franceses por meio das falas dos personagens. Bastante informação é passada sobre como se fazia guerra na época e em quais condições viviam os soldados, se focando bastante também na diferença entre os soldados rasos e os oficiais, bem como no preconceito que ambos os lados tinham um com o outro em geral.

Outro ponto de destaque são as referencias e personagens históricos que figuram no livro. Para cada personagem fictício importante, existe também alguma figura histórica, seja ela com uma participação ativa, como o Major-General David Baird, pequenas aparições, como Wellesley ou participando de uma ou outra cena, como o tenente Fitzgerald; isso além do próprio antagonista, o Sultão Tippu. Ao fim do livro, há notas onde o autor explica quais fatos foram alterados em prol da história do romance e quais permaneceram, além de citar alguns anacronismos e comentar informações sobre suas pesquisas quando esteve na Índia em busca de material.

Não é executado, não é atropelado por vacas, esquartejado e nem perde a cabeça. Deve levar algum tiro, mas morrer, não.

No livro, tanto os personagens históricos quanto os fictícios são apresentados com uma personalidade bem sólida e que se mantém dentro dos próprios limites ao longo da história. É possível criar alguma espécie de conexão com o protagonista e também com os outros coadjuvantes, os personagens conseguem cumprir o papel esperado. Curiosamente, não é Sharpe quem acaba se sobressaindo, mas sim o detestável sargento Hakeshill, com suas manias paranóicas e modos excêntricos, sua história e forma de pensar ficam mais explicitas até mesmo do que as de Dick Sharpe. No entanto, há um ponto em que o livro peca. Justamente pelos personagens serem tão bem definidos dentro de seus próprios arquétipos, eles são muito pouco tridimensionais, praticamente possuindo apenas uma faceta; Sharpe é o soldado leal de boca suja e maus modos que vence heroicamente as adversidades, Lawford é o inexperiente oficial que tem o posto devido a família. E eles não mostram muito mais que isso.

O Tigre de Sharpe não possui uma história muito complexa, sendo muito mais simples que as outras séries do autor que foram publicadas no Brasil. É uma leitura fácil e que facilmente mantém o leitor seguindo suas paginas, possui um apelo especial para os que são fãs das outras obras de Cornwell por conter todas as marcas do autor, sobretudo no que toca as questões militares. Apesar do todo o cuidado com História e os modos do exército britânico, muito pouco é mostrado o ambiente exótico que é a Índia além de se mencionar algumas diferenças em relação ao clima e coisas que afetam diretamente o dia-a-dia militar.

Renan Barcellos, que só tinha bebido aguá mesmo

e que ouvia essa música que lhe lembrava hobbitses

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