Resenha – Drácula

Mais Que Uma História de Horror

Capa da minha edição
Capa da minha edição

Publicado em 1897, Drácula fomentou reações mistas no contexto vitoriano em que estava inserido. Apesar de colocado como um clássico automático do gênero do Horror Gótico, acima de obras como as de Edgar Alan Poe e de Mary Shelley, a história do conde vampiresco só foi começar a ter destaque alguns anos adentro do século XX. A obra não foi a primeira a romantizar o mito do vampiro, crédito que é concedido a John Willian Polidori com a novela “The Vampyre”, mas, apesar disto, foi o personagem do irlandês Bram Stoker que se tornou o vampiro mais conhecido do mundo e definiu várias convenções sobre as criaturas na literatura.

Plot e Estrutura

Ao contário de alguns de seus sucessores e antecessores, Drácula é principalmente uma história de terror. E isto é passado com as sutilezas normalmente atribuídas ao Horror Gótico, usando do psicológico e principalmente do medo do desconhecido. Os personagens não sabem o que é um vampiro, não possuem esse arquétipo da cultura pop enraizado neles e mal conseguem enxergar nos acontecimentos estranhos que ocorrem ao seu redor a presença do sobrenatural. Numa era de pensamento extremamente científico como a vitoriana, o tema da “Ciência vs Superstição” se revela na dificuldados protagonistas aceitarem a natureza do Conde Drácula e de seus feitos diabólicos.

Boa parte do livro, portanto, se trata não dos esforços para combater a criatura vampírica, mas da própria descoberta e aceitação de sua natureza. Mesmo Johnatan Harker, que no início da história tem uma traumatizante estadia no castelo de Drácula, tem dificuldades para aceitar o que viu, considerando tudo parte de alucinações causadas por uma doença. Os outros personagens se veem em situações ainda mais complicadas, pois – apesar de o leitor saber exatamente o pivô dos acontecimentos inexplicáveis – de início têm contato apenas com eventos estranhos, de difícil explicação, mas que podem ser relacionados a coincidências, erro humano, doenças e outras coisas corriqueiras.

Apesar do gênero do terror, não se pode ignorar essa característica de investigação que existe no livro e inclusive parece inspirar outras histórias vampirescas – como o anime “Shiki” e “Noturno”, o livro de Guillermo del Toro e Chuck Hogan. Em Drácula, os personagens empregam métodos científicos e até mesmo investigações detetivescas em sua ânsia de racionalizar e posteriormente entender os fenômenos que encontram. É principalmente sob a ótica do Dr. Seward, um médico psiquiatra e pupilo do distinto Van Helsing, que o leitor visualiza este processo de abdução, indução e dedução, conforme o personagem testemunha o definhar de uma das vítimas do Conde e luta para entender a misteriosa “doença” e salvar sua amiga e paciente.

Drácula é um romance epistolar. Toda sua história contada através de registros, diários e matérias de jornal, de forma que existe uma proximidade muito grande entre os pensamentos e progressos dos personagens e o entendimento do leitor sobre os acontecimentos e também sobre a natureza e poderes de Drácula. A estrutura narrativa do livro faz com que sejam os próprios personagens a contarem a trama das desventuras que passaram em meio ao objetivo de destruir o vampiro. Uma das grandes qualidades da obra é, portanto, o fato de que os “documentos” presentes no livro serem a mesma série de arquivos levantados pelos personagens para que pudessem compartilhar entre si os conhecimentos e experiências acerca dos eventos decorrentes das ações do Conde Drácula.

Seguindo a ideia dessa estrutura, é fácil constatar que o objetivo de Bram Stoker foi criar a ilusão de que o leitor tem em mãos registros de eventos verídicos e de alguma forma se viu herdeiro do legado dos “caça-vampiros”. E um registro da terrível história de sua luta contra o Conde Drácula é imprescindível, pois precisam passar adiante os conhecimentos que obtiveram para, em caso de falharem em sua tarefa ou na eventual aparição de outro vampiro, exista quem possa combatê-lo e livrar a humanidade de seu mal. Toda essa “herança” torna-se então de responsabilidade do leitor.

Apesar de não parecer, Shiki é uma história competente de terror que se inspira na parte investigativa de Drácula
Apesar de não parecer, Shiki é uma história competente de terror que se inspira na parte investigativa de Drácula

Personagens e Machismo

Apesar do título do livro levar o nome do vampiro – e diferente do filme de Coppola –, o Conde Drácula não é um dos protagonistas da história e sim os personagens que se juntam em prol da destruição do monstro. Dentre estes, os que detêm uma maior importância são Jonathan Harker, Mina Murray e Jack Seward, com Sir Arthur Holmwood e o texano Quincey Morris tendo papéis importantes na trama, além de Lucy Westenra, amiga de Mina Murray e primeira vítima de Drácula em Londres, que acaba sendo o pivô da reunião de todo o grupo.

Além destes, é claro, existe a presença ostensiva do professor Abraham Van Helsing, que embora não seja colocado num papel ativo, já que os registros da história não são escritos por ele, tem uma posição de destaque como mentor do grupo, caçador nato e o maior conhecedor da criatura que eles perseguem. É importante notar que Van Helsing é o próprio Bram Stoker auto-inserido em sua história. Apesar de não compartilharem a nacionalidade, autor e personagem compartilham os mesmos traços físicos e também o mesmo primeiro nome – Bram é um apelido para Abraham. Podendo, desta forma, Stoker ter inserido em sua obra uma representação de si mesmo como o conhecedor da criatura-vampiro que ele mesmo está escrevendo.

Talvez apenas fruto de um tempo machista, ou realmente convicção do autor em uma superioridade masculina imaginária, a obra de Bram Stoker carrega altas doses de machismo que podem ser facilmente observadas através da interação dos personagens. Os homens da história, além de protegerem Mina e Lucy por acreditarem ser este o papel de um cavalheiro, diversas vezes elogiam a Srta. Murray por ter uma “boa cabeça”, comentando que em muitos aspectos ela pensa como um homem e não como uma mulher. É comum no decorrer do livro Mina receber elogios por possuir características consideradas masculinas – conhecimentos científicos, prática de taquigrafia, por exemplo – para pouco depois mencionarem que no fim das contas ela ainda é uma mulher, que precisa ser protegida, que é fraca e suscetível a histerias e emoções incontroláveis.

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Lucy Westenra e Mina Murray no filme de Coppola

É verdade que em dados momentos Mina Murray seja colocada como uma personagem forte e talvez para a época a caracterização dela tenha até mesmo um cunho “progressista” devido ao interesse por coisas consideradas exclusivamente masculinas. Ainda que, muito da força que ela exibe acaba vindo de valores católicos como a submissão da mulher a homens e ao marido. Como ela mesma diz em determinados momentos, ela precisa ser forte por eles, precisa ser forte para não atrapalhar o trabalho dos homens e para o bem de seu amado, Jonathan Harker. Essa força que ela exibe de forma alguma é por ela mesma. Inclusive, é de se notar que Lucy Westenra, que exibe muito mais liberdade sexual do que Mina e é mais emotiva – portanto, dentro desta lógica, mais feminina – não consegue resistir aos feitiços de Drácula tanto tempo quanto posteriormente a Srta. Murray consegue.

O machismo também se mostra no ideal de “masculinidade” que os personagens masculinos e o autor colocam na obra. Os caçadores de vampiros, com exceção Harker, são sempre descritos como homens fortes, de ombros largos e de queixo quadrado, mais de uma vez sendo mencionado que é assim que um homem deve ser. Em relação ao marido de Mina inclusive, vale mencionar uma passagem de certo preconceito, onde Jack Seward vê Jonathan pela primeira vez e, sendo este franzino e com aparência pouco austera, por um instante não consegue acreditar no que haviam dito sobre seus feitos e coragem.

Aliás, coragem, austeridade, vigor e força são palavras recorrentes quando os personagens masculinos referem a si mesmos, enquanto para as mulheres fala-se sobre fragilidade, inocência, beleza e vivacidade. Em momento algum consideram que Mina Murray poderia acompanhá-los na tarefa de acabar com Drácula e seus esconderijos; porque ela é mulher, porque aquela não era uma tarefa para mulheres, porque ela não tinha força e coragem o suficiente.

O Vampiro de Stoker

Dentro da obra, Drácula se apresenta como um vilão desde o seu início, quando interage pela primeira vez com Jonathan Harker. Visto como um demônio na Transilvania, o monstro planeja – provavelmente há bastante tempo – mudar-se para a Inglaterra, onde poderia se alimentar de inúmeros londrinos e espalhar a sua maldição. Isso pode ser interpretado como medo de um “colonialismo inverso”, baseado numa invasão de imigrantes às zonas urbanas da Inglaterra que estariam corrompendo os valores britânicos.  Essa  ideia de xenofobia acaba sendo reforçada pela condição de Drácula e dos afligidos por sua maldição estrangeira serem feridos por objetos sagrados e puros, além de – o que acaba soando muito como uma confirmação – a própria terra retirada da pátria do vampiro ter um potencial de corrupção e precisar ser purificada.

Essa corrupção trazida pela maldição do vampiro também assume um caráter sexual. As três esposas de Drácula que residem em seu castelo ameaçam a vida de Jonnathan seduzindo-o promiscuamente – tão diferente de como uma dama deveria se portar – enquanto atraem o personagem para uma armadilha que irá tomar a sua vida. De forma semelhante, quando Mina Murray tem seu encontro com o Conde, a cena é apresentada como se ele fosse um amante secreto tentando suas virtudes. Não há, como no filme de Coppola, nenhuma história de amor entre o vampiro e Mina. As ações de Drácula são apenas perniciosas e vingativas, como se estivesse tentando a esposa de Harker para atingi-lo.  Dessa forma, o comportamento de ambos os grupos de vampiros acabam reforçando a ideia de xenofobia, apresentando estrangeiros desvirtuando o casamento de londrinos e ameaçando relações afetivas puras.

Na segunda metade do século XX, os vampiros aos poucos foram tomando representações diferentes da criação de Stoker. O vampiro de traços refinados, delicado e muitas vezes quase andrógino acabou sendo uma das principais imagens da criatura. Mesmo o Drácula, antes um sujeito alto, de ombros largos, um bigode respeitável e lábios grossos – como os outros personagens masculinos de seu autor –, é representado muitas vezes mais como vampiros de Anne Rice ou interpretado por algum galã de Hollywood que tem mais beleza do que um porte físico apropriado ao personagem. Essa mudança na aparência, tanto do Conde quanto de vampiros em geral, não desvinculou a criatura de uma ideia de sexualidade, pois talvez as descrições físicas se adaptaram ao que era apropriado para o momento, e na maioria das mídias os sanguessugas são mostrados como indivíduos sensuais e libertinos. Mas em obras modernas, isso acaba tendo uma outra conotação que não a retratada no livro de Stoker, já que os costumes e tabus que existiam na época de Stoker diluíram ou não existem mais; a sedução do vampiro já não é atrelada a corrupção moral.

Uma boa representação de Drácula
Uma boa representação de Drácula

Apesar de não ter sido o primeiro monstro de sua estirpe, Drácula acabou estabelecendo muito do mito do vampiro moderno. A coletânea de poderes e fraquezas que Stoker atribuiu ao monstro sobreviveu as décadas e, mesmo que algumas dessas características tenham menos ocorrências, estabeleceu o que é considerado “correto” para esses sanguessugas. Fraqueza contra luz do sol, aversão a alho e impossibilidade de lidar com objetos sagrados são coisas exploradas pelos caçadores para combater o Conde. Já a super-força, velocidade sobre-humana, capacidade de hipnotizar seres humanos e controlar – bem como se transformar em – animais são as maiores preocupações de Van Helsing e seus pupilos.

Mesmo tendo sido escrito no século XIX, com valores muito diferentes do século XXI, o Conde Drácula continua sendo o vampiro mais importante e mais influente da literatura, e suas características e personalidade ainda influenciam as obras modernas, muitas vezes servindo de parâmetro para julgar o que é e o que não é um vampiro de verdade. E não se trata apenas de uma influência a novas criações, são inúmeras as obras, de diferentes gêneros e mídias, que utilizam diretamente o personagem de Bram Stoker ou um Drácula inspirado no original. Não é a toa que, segundo o Guinness Book, Drácula é o montro com mais aparições midiáticas.

Últimas Palavras

Alguns dos temas do livro acabaram se tornando datados devido a passagem do tempo e, lido hoje em dia, provavelmente não tem o mesmo impacto do que teria  na época em que foi lançado.  Ainda assim,  Drácula oferece ao leitor uma história competente de horror e investigação, com um estilo e linguagem que não traz problema algum para ser absorvido. Por sua influência no gênero do terror e na cultura pop, o magnum opus de Bram Stoker é essencial para aqueles que se interessam por obras de terror gótico de dois séculos atrás ou que procuram entender a história dos vampiros na literatura, bem como a presença e evolução destas criaturas na cultura pop. Aos mais atentos, sendo uma boa ficção de terror, Drácula é uma oportunidade de entender alguns dos temores e os valores dos britânicos de sua época, além de observar um pouco das questões de gênero que envolviam a mulher há mais de 100 anos atrás.

That's all, folks
That’s all, folks

Renan Barcellos, que tinha terminado um copo de água

E que não gosta desses amor opressivo não

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2 comentários sobre “Resenha – Drácula

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