O Russo Negro – Resenha

Mais Próximo do Noir do que de Agatha Christie

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Nascido na ilha da Tasmânia e morando atualmente em Sidney, Lenny Bartulin não é um autor muito comentado nas terras brasileiras, embora seu primeiro livro tenha sido publicado em 2008. Tendo pouco reconhecimento ao redor do globo, coube ao selo Casa da Palavra da editora Leya uma tímida publicação da série protagonizada por Jack Susko. O Russo Negro(Casa da Palavra; 256 páginas; 2013) é o segundo livro dos “Mistérios de Jack Susko” (“A Jack Susko Mistery”, no original. O nome da série não foi incluído na publicação brasileira), mas pode ser lido de forma independente do anterior sem que haja nenhum problema de compreensão da trama ou dos personagens.

O primeiro capítulo começa bem no meio do climax do livro. Uma personagem feminina de identidade desconhecida que aponta uma arma para todos da sala e os manda encostar na parede (“Menos você Jack, você fica onde está”), os dez mil dólares queimam no bolso de Susko e o“cara morto” que está jogado no sofá, estabelecem logo nas primeiras linhas o clima meio noir da história. No entanto, através do protagonista, esse noir se torna leve, espirituoso e com doses de um humor ácido e irreverente. Não existe um “respeito” pelas situações. O que teria uma aura de seriedade e um cheiro de cigarro nas obras de Chandler e Hammet, é tratado com uma descrença digna de Neil Gaiman. Um noir pulp protagonizado por um perdedor.

Entretanto as coisas são diferentes na presença do Russo Negro. Viktor Kablunak é um comerciante de arte religiosa roubada e um homem de personalidade curiosa. Amante do Jazz e do Blues e da cultura negra americana. Um perfeito administrador, negociante de objetos ilegais, competente e alguém que honra a sua palavra, é talvez o único personagem que realmente sabe o que está fazendo. A relação dele com o protagonista é de certa simpatia. Kablunak gosta de Susko. Mas para ele negócios são negócios. Essa aura de seriedade do personagem que dá nome ao livro se estende para a trama. Mesmo para a irreverência de Susko, aquele é um homem a ser temido e respeitado. Contudo, Kablunak não soa como o vilão de uma história noir, mas sim como alguém excêntrico e teatral cujos maneirismos afetados acabam lembrando personagens do livro que ele mesmo tomou para si: 007.

Na trama, a Susko Books é um sebo sem muitas particularidades e que traz um misto de dor de cabeça e pequenas doses de alegria para o seu dono. Não é muita gente que pensa em ser dono de um sebo, e Jack nunca teve isso como a meta da sua vida, no entanto, gosta da companhia dos livros e de suas histórias, e foi o que acabou conseguindo. As coisas talvez fossem um pouco melhores se não estivesse constantemente no vermelho. Mas não é o fim do mundo. Ele tem uma cliente interessada em uns desinteressantes catálogos de arte e talvez nesse mesmo dia consiga vender uma edição rara de Moscou contra 007. E o livro do Ian Fleming vale alguns poucos milhares de dólares que vão ajeitar as contas por uns tempos.

Os planos do protagonista são simples, mas ele acaba não tendo muita sorte. Ao presenciar um assalto na galeria de arte da senhora Rhonda de Groot, em que bandidos roubam um pacote de dentro de um cofre, Susko acaba sendo amordaçado também e um dos criminosos resolve levar também o volume de Moscou contra 007. Seu chefe iria gostar daquele, disse o homem máscarado para o terror do azarado Susko. Acontece que Jack conhecia um dos criminosos, um antigo colega que ainda lhe devia dinheiro que trai o seu chefe e acaba enviando para Jack através dos correios a Bíblia de Sergius, um artefato religioso muito antigo avaliado em uma fortuna. Claro que algumas pessoas perigosas estão atrás do objeto.

A premissa da história é simples. Mas nem por isso deixa de ser divertida. Entre objetos valiosos que ninguém sabe onde estão, colecionadores e traficantes de arte roubada, assassinatos e traições, O Russo Negro lembra muito o noir de Dashiel Hammet, O Falcão Maltês. Contudo, a grande diferença está no protagonista. Jack Susko jamais seria interpretado por Humphrey Bogart. Ao invés de um detetive casca-grossa, ele faz mais o estilo de um herói contemporâneo. Esperto, sarcástico, cheio de referências e completamente irreverente frente ao mundo, Susko não é um homem de ação. Ele não sabe brigar, não sabe atirar e de forma alguma resiste a intimidação física. É apenas um sujeito qualquer, meio amargo e meio ranzinza que no momento acha que o universo tem alguma coisa contra ele.

Na sinopse da Casa da Palavra, é dito que o personagem poderá viver o que pensou existir apenas em livros de romance policial e que “se descobrirá um detetive nato, que, mais do que seguir um raciocínio minucioso, às vezes, possui boa dose de instinto e intuição”. No entanto, não existe um caso a ser investigado ou alguma ânsia em participar da aventura toda. Susko está assustado e pessimista. Não quer fazer parte de nada daquilo. Quer apenas sua vidinha de sempre e seu sebo pra cuidar. Com diversas pessoas tentando enganá-lo e um objeto de extremo valor esperando para que ele vá pegar no correio, sua vida está ameaçada e ele não vê muito como sair daquela situação. Se alguém tiver a bíblia, outras pessoas ficarão sem. Gente perigosa e traiçoeira, que atropela amigos e família para conseguir o que quer.

Não resta a ele muito mais do que tentar sobreviver. Ele não é um Sam Spade que foi contratado para encontrar o artefato desaparecido. O paradeiro do artefato é conhecido e apenas Susko sabe onde ele está. Seu papel na história, além de ser o cataclista para a situação e o ponto do conflito dos diversos interessados pela fortuna que a Bíblia de Sergius traz, é tentar manobrar capangas, chefões, traficantes, mulheres encolerizadas e femme fatales para tentar entender o que de fato está acontecendo, não ser enganado por ninguém, escapar de tudo vivo e no final ainda ter seu sebo.

Renan Barcellos, que tinha terminado de beber coca

e que não tinha lucro de nenhum tipo

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