Conto – O Despertador

O Despertador

Após a noite de silêncio e escuridão, se acendeu com o primeiro toque de uma manhã ainda infante, iluminando o que podia da penumbra que ainda habitava o quarto. Agitou-se e remexeu-se, reclamando das vinte e quatro horas que passara em inanição.

Sua música veio logo depois, com um que de orgulho, toda a sua animação e também um tom mais do que acentuado de zombaria. Certeiro, no momento em que deveria expor seu júbilo, mas muito antes do instante em que este seria apreciado, veio o seu canto. Um trabalho ingrato, talvez, mas ainda assim indispensável. Não seria dispensado por fazer o que lhe era esperado.

TUM-TUM! TUM-TUM! ribombou o seu soar, recheado de alegria. Perguntou-se que dia seria aquele. Não a data, pois isso sempre era de seu conhecimento, mas sim em como passaria aquela manhã. Cantaria apenas uma vez ou lhe seria permitido alguma diversão?

TUM-TUM! TUM-TUM! estariam já chegando para pará-lo? Incomodava, sabia, mas era essa a sua função. Não era uma escolha, mas cantava, cantava e o fazia com alegria.

TUM-TUM! TUM-TUM! agora a diversão estava para acabar, ponderou. No primeiro soar de sua canção não se devia entender o que estava acontecendo, no segundo tomavam consciência da situação, na terceira já se aborreciam e levantavam, no quarto grito de júbilo colocavam um fim em sua animação.

TUM-TUM! TUM-TUM! repetiu, preparando-se para calar-se. Cantaria mais um de seus versos, se pudesse, mas não daria tempo, precisava esperar. Se adiantaria, se conseguisse, apressaria o seu ritmo. Mas de segundos e minutos exatos era um escravo, deles nunca poderia escapar.

TUM-TUM! TUM-TUM! se surpreendeu com a própria canção, que veio com o mesmo ardor e felicidade de antes, sem sequer uma nota de confusão. Por três anos, setenta e quatro dias, treze horas e vinte e sete segundos não chegava ao seu quinto ressoar. Se agitou, como nas vezes anteriores. Repetiu o padrão. Adorou cada parte daquilo.

TUM-TUM! TUM-TUM! era o seu dia de sorte, a sexta vez nunca lhe havia chegado. Se sentia realizado, nunca ganhara tanta liberdade, como esperar mais do que aquilo?

TUM-TUM! TUM-TUM! a alegria era a mesma de sempre, magnânima, inacabável, completa; um canto glorioso. Mas não era estranho? Ninguém aparecera. Certamente não tardariam a chegar agora. Impossível não o terem escutado. Não, não a sua canção. Continuar lendo

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Conto – Arauto da Primavera

Arauto da Primavera

 

Findo o inverno, ela chegava. Em mil cores distintas no longo vestido de algodão, trazia o frescor e a alegria para os moradores da vila. Rodopiante, bailava, afastando os temores das longas noites, de um frio ainda vívido. Do sangue daquela gente, naquele dia a ceifadora do inverno, arauto da primavera.

De loiros cabelos, refulgia na Praça da Dança. Os olhos verdes eram o mar, as folhas que nasciam. Seu sorriso quebrava o gelo dos corações, convocava a todos para a eterna dança que duraria apenas um dia. O canto se misturava ao vento, se espalhando pelas matas que despertavam, pairando sobre as planícies banhadas pelo novo dia.

As garotas a paparicavam e invejavam, procurando por sua benção; rapazes de todas as idades se iam a cortejá-la, desejosos de sua graça. Mas não lhes dava atenção, o avatar da primavera. Um sorriso, uma carícia, e de vestido esvoaçante saltitava por pequenas ruas, visitando cada casa, provando do prato de cada família.

Durante todo o dia andava pelo vilarejo, trazendo a sua graça. Descalça, não se cansaria, não abandonaria a sua sina. Passeava entre os bosques e matas sombrias, nas choupanas esquecidas, de olhos orgulhosos, carregados de louvor. Com os animais metia-se em brincadeiras, o encardido da terra úmida apenas parte do seu vestir.

Quando noite, as flores desabrochariam. Iluminada pelas tochas, pela luz estrelar, a emissária do cheiro do orvalho não dançaria na solidão. O vilarejo gritaria em louvor, entrando no carnaval. A música viria dos tambores, das batidas dos pés que gingavam em êxtase. O entrelaçar dos corpos, a dança das estações.

O círculo se abre, o povo se afasta em deslumbramento. De joelhos e com olhos maravilhados, contemplam a encarnação da primavera. Marcada com o sangue de muitos, com o cheiro da terra, do suor e dos ventos, bebe do cálice da mudança, da taça de barro e madeira.

E então dança.

Dança como nunca dançou. Dança como por um ano ninguém dançaria. Possuída pelo movimento, no frenesi da luta da vida. Seus cabelos esvoaçavam, seus olhos um borrão de verde. A cada espasmo, o suor banhava a platéia em procissão. Os contemplados pela primeira dádiva da primavera choravam, emocionados, mas não emitiam som. E ela gritava, rugia, cantava, chilreava a canção, os ritos que trariam o novo, que baniriam o velho.

No auge daquele ritmo, os braços se erguiam. As pernas sapateavam e paravam. O uivo se ouvia. A faca brilhava, viva, vermelha de chamas, vermelha de sangue. Os braços se abaixavam. E a lâmina encontrava carne, trazia mais sangue para a noite da dança e dos mortos.

E ela ainda dança, o espírito da primavera. Mas as forças acabam. A Jovem cai.

Vida banha a terra desnuda.

Olhos cinza dão o verde da grama, das folhas, das árvores em copa.

Os cabelos, brancos e ressequidos, semeiam o trigo, o brilho do novo sol, o zumbir de milhares de abelhas.

Lábios pálidos para o rubor das rosas, do ventre das mulheres.

O vestido preto e branco cede seus infinitos pigmentos para as flores, plantas, inesgotáveis animais.

O barro. A terra misturada ao sangue traz a vida nova em seu meio.

Os espasmos cessam.

O movimento acaba.

A jovem morre.

A primavera chega.

E o povo dança. Até o próximo inverno.

Renan Barcellos,  que tinha uma caneca vazia

e  ouvia Steampunk Opera que não tem no youtube nem no grooveshark.

Conto – E para o Mendigo, Mais uma Vítima

E Para o mendigo, Mais uma vítima

Esta imagem do livro “Antagonistas”, do Novo Mundo das Trevas, inspirou o personagem.

Os olhos de Sarah arregalaram-se quando ela percebeu o mendigo – aquele mendigo – surgir da penumbra noturna a alguns metros atrás de Alejandro. Uma lâmina sem brilho decorava as mãos da aparição.

A mulher quis gritar, elevar sua voz estridente para alcançar a todos da redondeza em um sonoro pedido de socorro. Contudo, mesmo coxo, o mendigo era rápido, muito rápido. Mal havia ela conseguido desvencilhar-se dos apaixonados beijos de Alejandro e a ameaça já estava logo ali…

Confusão e uma pequena dose de divertimento se instalaram no semblante de Alejandro. Não havia percebido o perigo e imaginava que sua amante estivesse preparando alguma espécie de joguete. Pouco depois já não imaginava mais nada, em seu rosto estampava-se uma surpresa sofrida, enquanto no de Sarah apenas o terror. Dois palmos de um metal prateado haviam atravessado o pescoço do latino.

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A Queda do Forte Belkarrar

 Depois de um pequeno hiato, volto com mais um conto. É um conto antigo, creio que até já foi mencionado antes. Ele pertence ao cenário de Cmyvllaeth. Está desatualizado, pois muita coisa mudou desde sua concepção, contudo, vários aspectos permaneceram.

Caso os leitores peçam, farei um post explicando sua relevância para o mundo de Cmyvllaeth e de onde veio a inspiração (algo como fiz com o Anjos em Ethandun). Não irei me estender porque postei o conto na íntegra, sem divisões. Adianto que pretendo reescrevê-lo em algum momento, porque ele fala de coisas que influenciam o livro no qual estou trabalhando no momento.

Boa leitura =)

O Belkarrar tem um aspecto semelhante ao de um forte gótico…

O comandante estava em pé, numa das áreas mais altas do forte Belkarrar. Olhava, com certo pesar, para a planície logo à frente da região montanhosa em que a fortificação se situava.  Aquela era uma posição estratégica para o reino de Dwyrain, pois defendia um dos únicos caminhos conhecidos por entre a Serra dos Dois-Passos. O militar refletiu sobre aquele nome decerto agourento, sabia que histórias contadas por gerações diziam que era impossível não encontrar algo mortal após um simples caminhar. Suspirou. A cadeia de montanhas era decerto perigosa, mas as pessoas da região têm o costume de aumentar uma historia toda vez que ela é contada.

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Anjos em Ethandun – Parte 3

Perdeu o início? Leia a parte 1 aqui.

Então, a ideia desta narrativa um tanto quanto “diferente”, veio de minhas lembranças sobre o conto introdutório do livro de rpg “Lobisomem o Apocalipse”. Nele, um garoto que passou recentemente por sua primeira mudança e precisa ser ensinado nos antigos modos garou recebe uma lição de história e cultura de um lobisomem mais antigo. Na época em que escrevi Anjos em Ethandun eu tinha lido o livro apenas uma vez, por volta dos doze anos, e por algum motivo achava que nesta história introdutória o estilo da narrativa era este que usei, mas depois que reli… bom, vi que não era. Mas a influência de um ancião narrando histórias do passado para alguém que é em parte de seu povo permanece.

Uma curiosidade: o conto poderia ficar bem maior, no entanto, tive que restringir bastante minha mão, porque o intuito inicial era mandá-lo para um antologia. De última hora mudei de ideia e enviei “O bardo e o bárbaro” e “A queda do forte Belkarrar”, que eventualmente serão postados aqui.

Não muito parecidos com saxões e dinamarqueses, mas eles também têm seus contadores de história (e nativos da Dinamarca).

Sem mais delongas, a parte final do conto:

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Anjos em Ethandun – Parte 2

Anjos em Ethandum foi um conto legal de escrever. Eu tinha acabado de ler crônicas saxônicas, de Bernard Cornwell, acho que o terceiro livro, creio eu, onde o personagem Uthred narra a batalha de Ethandun, que pode-se dizer que definiu o futuro da Inglaterra.

O conto foi todo baseado numa frase que o personagem diz após a batalha. Ele reclama que mais tarde os padres cristãos iriam florear a batalha e tirar o crédito dos guerreiros, dizendo que anjos com espadas flamejantes desceram à terra para punir os inimigos de deus. À partir disso eu tive a ideia de escrever esse pequeno conto, que foi escrito por pura diversão. E que trouxe algumas horas de pesquisa também, mas eu gostei de escrever com esse tipo de narração.

As batalhas na época em que o conto se passa se pareciam muito com isso, embora a imagem mostre saxões lutando contra saxões.

Caso não tenha lido, aqui o link para a primeira parte =)

Aconteceu muito antes dos anglos ousarem chamar esta terra de Englaland, antes de Guthrum, o rei de Danelaw – pedaço de terra que os dinamarqueses conquistaram aqui, em Britannia – enfraquecesse e se cristianizasse, adotando como novo nome Æthelstan… Ora, veja só que ridículo: Um dinamarquês chamado Æthelstan. E ainda por cima o padrinho de batismo dele fora o próprio Ælfred! Me pergunto o que dirão de Guthrum daqui a alguns anos… Bem, não importa. Para o que vou contar basta saber que tudo começou com a tomada de Chippenham.

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Anjos em Ethandun

Então, este é o primeiro conto que estou postando aqui. Ele vai ser dividido em três partes. Portanto, será postado ao longo de três semanas. Não é nenhum conto grande, nem dos mais criativos. Foi mais um exercício de escrita neste estilo de narração (que eu achei bem legal, diga-se de passagem). Não se passa em Cmyvllaeth nem em nenhum cenário meu, mas tem como pano de fundo a Inglaterra histórica, com um toque de fantasia.

Um skald que a maioria de vocês já ouviu falar.

Anjos em Ethandun

Ei, garoto, não precisa ficar com medo. Pode parar de me olhar de trás daí dessa carroça velha e vir até aqui se quiser, em vez de me espiar como um moleque tentando ver uma mulher nua. Posso ser um dinamarquês velho, barbudo, fedorento e caolho, mas até onde me recordo não tenho mania de morder a mão que me alimenta e no presente momento eu trabalho para seu pai, um saxão de Wessex.

Calma, calma… He he… Não precisa ficar irritadinho, sei que sabe de onde seu pai é. Apenas perdoe a mania que esse velho skald tem de querer embelezar e trabalhar cada coisa que fala, mas, afinal, é costume de profissão. O que é um skald? Quer saber o que é um skald? Posso te contar, mas… Hmmm… Que tal fazermos uma troca: Você vem até aqui, senta onde preferir e então lhe conto o que é um skald e mostro em primeira mão o que um deles faz. Tudo bem para você?

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