O Russo Negro – Resenha

Mais Próximo do Noir do que de Agatha Christie

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Nascido na ilha da Tasmânia e morando atualmente em Sidney, Lenny Bartulin não é um autor muito comentado nas terras brasileiras, embora seu primeiro livro tenha sido publicado em 2008. Tendo pouco reconhecimento ao redor do globo, coube ao selo Casa da Palavra da editora Leya uma tímida publicação da série protagonizada por Jack Susko. O Russo Negro(Casa da Palavra; 256 páginas; 2013) é o segundo livro dos “Mistérios de Jack Susko” (“A Jack Susko Mistery”, no original. O nome da série não foi incluído na publicação brasileira), mas pode ser lido de forma independente do anterior sem que haja nenhum problema de compreensão da trama ou dos personagens.

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Resenha – Drácula

Mais Que Uma História de Horror

Capa da minha edição
Capa da minha edição

Publicado em 1897, Drácula fomentou reações mistas no contexto vitoriano em que estava inserido. Apesar de colocado como um clássico automático do gênero do Horror Gótico, acima de obras como as de Edgar Alan Poe e de Mary Shelley, a história do conde vampiresco só foi começar a ter destaque alguns anos adentro do século XX. A obra não foi a primeira a romantizar o mito do vampiro, crédito que é concedido a John Willian Polidori com a novela “The Vampyre”, mas, apesar disto, foi o personagem do irlandês Bram Stoker que se tornou o vampiro mais conhecido do mundo e definiu várias convenções sobre as criaturas na literatura.

Plot e Estrutura

Ao contário de alguns de seus sucessores e antecessores, Drácula é principalmente uma história de terror. E isto é passado com as sutilezas normalmente atribuídas ao Horror Gótico, usando do psicológico e principalmente do medo do desconhecido. Os personagens não sabem o que é um vampiro, não possuem esse arquétipo da cultura pop enraizado neles e mal conseguem enxergar nos acontecimentos estranhos que ocorrem ao seu redor a presença do sobrenatural. Numa era de pensamento extremamente científico como a vitoriana, o tema da “Ciência vs Superstição” se revela na dificuldados protagonistas aceitarem a natureza do Conde Drácula e de seus feitos diabólicos.

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Resenha – O Tigre de Sharpe

O início da carreira do Rambo britânico

Capa nem boa nem ruim. Mas chama atenção, tem cara de algo histórico ou coisa parecida.

O escritor britânico Bernard Cornwell é conhecido no Brasil principalmente por seus livros que tratam de temas medievais, como Crônicas Saxônicas, as Crônicas de Arthur e a Trilogia do Graal e neles consegue mostrar um estilo muito característico, unindo fatos, possibilidades e personagens fictícios para apresentar romances históricos muito focados em guerras, grandes conquistas e batalhas. Tudo muito realista e verossímil, mostrando um lado nada fantástico dos combates e da vida que se levava na época. Contudo, as épocas onde espadas, escudos e machados dominavam não são as únicas ambientações das quais se valem o autor, sendo a sua maior série ambientada nas guerras napoleônicas e no fim do século XVII. Além de composta por mais de vinte livros, os primeiros tomos d’As Aventuras de Sharpe foram também os primeiros livros que o escritor publicou.

Conhecido no exterior como o maior personagem de Cornwell, inclusive tendo uma série sobre sua histórias (estrelada por Sean Bean, o Ned Stark de Guerra dos Tronos), Richard Sharpe é um oficial inglês marrento e de baixo nascimento, tendo ascendido em campanha nos postos do exercito britânico e portanto sofrendo de preconceito por parte de seus colegas. Nos primeiros livros escritos por Cornwell, o personagem está na Europa, nas tropas militares sob a responsabilidade pelo, naquela época, General Arthur Wellesley – primeiro duque de Wellington, futuro primeiro ministro e futuramente responsável pela derrota de Napoleão em Waterloo.

O livro O Tigre de Sharpe, embora não seja o primeiro escrito pelo autor, é cronologicamente o primeiro das histórias de Richard Sharpe. Na obra, as Guerras Napoleônicas ainda não começaram, Napoleão é conhecido apenas como um militar francês atrevido e Wellesley tem muito pouco crédito no exército britânico. Ambientado no Mysore, Índia, em 1799, no final da quarta guerra entre os ingleses da Companhia das Índias e o Reino do Mysore, o livro mostra um jovem Sharpe como soldado raso e iletrado, competente, mas insatisfeito com a vida no exército, seriamente pensando em virar a casaca e desertar em prol dos franceses. Atormentado e enganado pelo sargento Hakeswill, o protagonista acaba indo para o tronco ser chicoteado, mas no ultimo instante acaba sendo escolhido para a perigosa tarefa de, junto ao tenente Willian Lawford, se embrenhar na cidade de Seringapattan, onde reside o responsável pelas forças do Mysore – o Sultão Tippu – e resgatar as informações conseguidas por um oficial de alta patente que havia sido capturado; e que possui uma informação que pode salvar o exército inglês de uma armadilha.

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Resenha – Pilares da Terra

A Vida de Uma Cidade e de Seu Povo

Capa bem legal, embora possa passar uma impressão errada

Em Pilares da Terra(Editora Rocco, 940 paginas, R$ 69,00), fica claro o porquê de Ken Follet ser conhecido principalmente pelos seus romances baseados em um pano de fundo histórico. Começando no ano de 1123 e terminando em 1174, o livro mostra o percurso de toda uma geração, como eles afetam onde vivem e o que fazem para sobreviver à época de atribulações conhecida como A Anarquia, período no qual a Inglaterra foi dividida por uma guerra civil que durou quase trinta anos.

A história do livro, contudo, não se foca nos acontecimentos reais, utilizando eles para criar o clima do livro e sua influencia para motivar muitos dos conflitos da trama. Personagens históricos como o Rei Estevão (Stephen) e a Rainha Matilda figuram em diversos pontos do livro, no entanto se mostrando como personagens de apoio. Sem apelar para uma exploração das guerras e batalhas que aconteceram, o livro mostra o desenvolvimento da pequena cidade de Kingsbridge, da ascensão e queda de seus moradores mais proeminentes, e principalmente, na construção da catedral da cidade.

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Resenha – Cai o Pano: O Último Caso de Hercule Poirot

Chave de Ouro Para o Fim da Saga do Detetive Belga

Uma capa simples, talvez.

Reconhecida como a Rainha do Crime, Agatha Christie começou sua carreira com um personagem que viria a acompanhar toda a sua vida literária. Figurando em trinta e três romances policiais, metade das que a escritora viria a escrever, Hercule Poirot se tornou um personagem conhecido no gênero das histórias investigativas, ultrapassando a barreira das páginas e marcando presença em diversos filmes, além de possuir uma série de televisão iniciada em 1989. Em Cai o Pano, como o subtítulo do livro promete, o leitor pode ver o ultimo caso de um dos mais longevos personagens dos romances policiais.

Apesar de declaradamente inspirado em Sherlock Holmes, a criação de Agatha Christie possui uma vida própria e longeva, aparecendo em dezenas de livros ao longo de mais de cinqüenta anos, certamente se tornou uma figura única e notável com sua cabeça em forma de ovo, temperamento arrogante e o tão bem cuidado bigode ao estilo militar. Um livro sobre a última investigação do detetive que se apóia em “suas pequenas células cinzentas” – com o passar do tempo considerado intratável, cansativo e “um sujeitinho egocêntrico e detestável” por sua autora – poderia dar errado de diversas maneiras, contudo a Rainha do Crime, apesar de alguns tropeços, conseguiu dar um fim merecido às histórias de seu personagem mais famoso sem sair de seu estilo.

Como última história do detetive, a trama inicial do livro já começa acertando. Convidados a uma reunião de ex-militares, a dupla Poirot e Hastings se reencontram na conhecida casa em Styles Court, palco do primeiro romance escrito por Agatha Christie e do primeiro caso em que os dois personagens trabalharam juntos. Como não acontecia a muitos livros, Hastings volta a ser o narrador, fazendo uma combinação com apelo aos saudosistas das primeiras aparições do detetive Belga e também fechando a saga do personagem no mesmo lugar em que ela começou, como em um tributo.

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Resenha – O Expresso do Oriente

Trama insatisfatória, personagens interessantes

Imagem pequena, mas única encontrada =(

O Expresso do Oriente de Graham Greene (Editora Record; 190 paginas; esgotado) pode não se mostrar exatamente uma história satisfatória como um todo, mas não deixa de ser interessante. Os que gostam do gênero do drama e romance podem encontrar uma boa leitura, contudo, dificilmente os que preferem uma narrativa ágil e ação se encontrarão no livro. Os personagens muito bem modelados – nem bons nem maus, apenas humanos com defeitos e virtudes – e a forma rebuscada da narração podem ser uma boa referência para qualquer escritor, goste ou não do estilo.

O Expresso do Oriente, trem cuja linha ligava Paris até Istambul, figura em vários segmentos da ficção. Talvez por sua opulência, sendo o primeiro veículo da linha a possuir vagões dormitórios e vagões restaurantes, ou então por sua fama e história conturbada, foi palco de assassinatos nas tramas Agatha Christie, carregou caçadores de vampiro em Drácula, deslocou-se para o espaço em Doctor Who e sediou a maior parte de um episódio de As Tartarugas Mutantes Ninja. O livro de Graham Greene falha em apresentar uma história variada e mirabolante como algumas das outras obras em que figura o primeiro expresso de luxo do mundo, mas tem o mérito de ser uma das primeiras a utilizar o veículo como palco.

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Resenha – Alias

Uma detetive noir em um mundo com super heróis

A belíssima capa da primeira edição

Depois de quebrar com o Comics Code Authority, selo que zelava por uma censura nos quadrinhos americanos e regulava seu conteúdo, a Marvel se viu livre para criar seu próprio modelo de classificação etária. Em 2001, surgia então o selo MAX, que tinha como público alvo adultos e permitia conteúdo explícito em violência e linguajar, não precisando se limitar a restrições que eram norma na época. O primeiro título a levar MAX em sua capa foi Alias, do roteirista Brian Michael Bendis (Powers e Invasão secreta) e desenhada por Michael Gaydos (Powerless).

Alias mostra uma realidade diferente da normalmente usada pela Marvel, o universo 616, e traz a primeira aparição da personagem Jessica Jones, que mais tarde seria incorporada ao universo regular, em sua vida e investigações enquanto detetive particular da agência Codinome Investigações.

Em meio às páginas da história, existem várias referências diretas aos heróis da editora, além de aparições do Capitão America, da Miss Marvel e da agência de espionagem da Shield. No entanto, tudo é mostrado com uma ótica um pouco mais realista. Os personagens não são “onipresentes”, como comumente acontece em suas revistas, e são vistos como existências distantes do cidadão comum, como mitos reais ou super celebridades que nunca estão disponíveis, mas ao mesmo tempo, neste universo, mesmo heróis como o Capitão América são humanos falhos, com tentações e desejos, e padecem de situações que não seriam consideradas muito heróicas.

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