Arauto da Primavera

Findo o inverno, ela chegava. Em mil cores distintas no longo vestido de algodão, trazia o frescor e a alegria para os moradores da vila. Rodopiante, bailava, afastando os temores das longas noites, de um frio ainda vívido. Do sangue daquela gente, naquele dia a ceifadora do inverno, arauto da primavera.

De loiros cabelos, refulgia na Praça da Dança. Os olhos verdes eram o mar, as folhas que nasciam. Seu sorriso quebrava o gelo dos corações, convocava a todos para a eterna dança que duraria apenas um dia. O canto se misturava ao vento, se espalhando pelas matas que despertavam, pairando sobre as planícies banhadas pelo novo dia.

As garotas a paparicavam e invejavam, procurando por sua benção; rapazes de todas as idades se iam a cortejá-la, desejosos de sua graça. Mas não lhes dava atenção, o avatar da primavera. Um sorriso, uma carícia, e de vestido esvoaçante saltitava por pequenas ruas, visitando cada casa, provando do prato de cada família.

Durante todo o dia andava pelo vilarejo, trazendo a sua graça. Descalça, não se cansaria, não abandonaria a sua sina. Passeava entre os bosques e matas sombrias, nas choupanas esquecidas, de olhos orgulhosos, carregados de louvor. Com os animais metia-se em brincadeiras, o encardido da terra úmida apenas parte do seu vestir.

Quando noite, as flores desabrochariam. Iluminada pelas tochas, pela luz estrelar, a emissária do cheiro do orvalho não dançaria na solidão. O vilarejo gritaria em louvor, entrando no carnaval. A música viria dos tambores, das batidas dos pés que gingavam em êxtase. O entrelaçar dos corpos, a dança das estações.

O círculo se abre, o povo se afasta em deslumbramento. De joelhos e com olhos maravilhados, contemplam a encarnação da primavera. Marcada com o sangue de muitos, com o cheiro da terra, do suor e dos ventos, bebe do cálice da mudança, da taça de barro e madeira.

E então dança.

Dança como nunca dançou. Dança como por um ano ninguém dançaria. Possuída pelo movimento, no frenesi da luta da vida. Seus cabelos esvoaçavam, seus olhos um borrão de verde. A cada espasmo, o suor banhava a platéia em procissão. Os contemplados pela primeira dádiva da primavera choravam, emocionados, mas não emitiam som. E ela gritava, rugia, cantava, chilreava a canção, os ritos que trariam o novo, que baniriam o velho.

No auge daquele ritmo, os braços se erguiam. As pernas sapateavam e paravam. O uivo se ouvia. A faca brilhava, viva, vermelha de chamas, vermelha de sangue. Os braços se abaixavam. E a lâmina encontrava carne, trazia mais sangue para a noite da dança e dos mortos.

E ela ainda dança, o espírito da primavera. Mas as forças acabam. A Jovem cai.

Vida banha a terra desnuda.

Olhos cinza dão o verde da grama, das folhas, das árvores em copa.

Os cabelos, brancos e ressequidos, semeiam o trigo, o brilho do novo sol, o zumbir de milhares de abelhas.

Lábios pálidos para o rubor das rosas, do ventre das mulheres.

O vestido preto e branco cede seus infinitos pigmentos para as flores, plantas, inesgotáveis animais.

O barro. A terra misturada ao sangue traz a vida nova em seu meio.

Os espasmos cessam.

O movimento acaba.

A jovem morre.

A primavera chega.

E o povo dança. Até o inverno seguinte.

 

Escrito em 2012

 

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